quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Lego

De todos os brinquedos que eu não tive - seja por falta de grana do meu velho ou pelo fato destes brinquedos não existirem na minha infância - o que mais me diverte nos dias de hoje são os bloquinhos da Lego. Deixem eu explicar melhor: meu filho, o Pedrinho, tem várias caixas deste brinquedo. O mais legal de tudo isto é que eu não precisei comprar um único bloquinho (que não são nada baratos!!)!! Ele herdou todos do seu primo Guga, hoje com 19 anos, que guardou sabiamente todos os mais variados tipos deste brinquedo e os deu de presente para o Pedro no Natal de 2007.

Lembro do Guga, quando pequeno, concentrado nos desafios de cada conjunto, tendo em sua volta um universo de bloquinhos coloridos - entre outras tantas pecinhas especiais - de acordo com cada tema. Não foram poucas as vezes em que me vi envolvido com ele nesta alegre brincadeira. É incrível a qualidade de fabricação e a precisão deste brinquedo. Assim como é incrível, também, as várias combinações que podemos construir com poucos bloquinhos.

É um desafio de inteligência, criatividade e paciência que envolve até - ou principalmente - os adultos. Lembro da minha alegria - e a do Pedrinho também - quando montamos junto um grande e complexo helicóptero. Claro que com a ajuda dos manuais de construção muito bem elaborados. Diante da qualidade deste brinquedo, conseguimos entender o seu grande sucesso.

Então, este texto vai em comemoração aos 51 anos de vida desta criação, desde a sua patente em 1958.
Breve histórico

A LEGO foi fundada em 1932 pelo carpinteiro dinamarquês Ole Kirk Christiansen, na pequena vila de Billund, na Dinamarca, onde fabricava carrinhos de madeira artesanais para seu filho Godtfred Kirk. Seu filho começou a trabalhar no negócio com apenas 12 anos. Na parede da empresa foi pintada uma frase com os dizeres: “Only The Best is Good Enough”, usada atualmente para definir a empresa.


Em 1934, a empresa, então com seis funcionários, adota nome LEGO, formado a partir das iniciais da frase dinamarquesa “LEg GOdt” que significa Play Well (Bem Jogado). Passou a fazer brinquedos desmontáveis até criar, em 1942, as primeiras pecinhas de plástico para encaixar.

Em 1947 começou a produzir brinquedos de plásticos através de uma máquina modeladora. Dois anos mais tarde a empresa produzia mais de 200 diferentes tipos de brinquedos, feitos de madeiras e plástico, incluindo os blocos de montar que conhecemos hoje em dia. Os blocos de montar ganham novo nome “LEGO Bricks” em 1953.


Em 1958 o sistema de montagem e encaixe dos blocos é patenteado e o novo sistema de montagem criava inúmeras possibilidades de formas. A fábrica de brinquedos de madeira é destruída por um incêndio em 1960, e a empresa resolve dedicar-se somente a produção de brinquedos de plástico.

Em 1964 a empresa introduz as instruções de montagem em suas embalagens, auxiliando as inúmeras possibilidades de montagem de cada linha do produto por parte do consumidor. Em 1976 o bloco duplo de montar (Duplo Brick) é inventado e patenteado pela empresa, voltado para as crianças mais jovens. Nessa época existiam 218 diferentes kits de montar, com variações de cor, vendendo quase 19 milhões de kits por ano. No ano seguinte é inaugurado o LEGOLAND Billund, uma espécie de parque temático da marca, que em seu primeiro ano recebeu 625.000 visitantes.

Em 1973 a empresa adota um único logo, inclusive para todas as linhas de produto. Nesse mesmo ano é lançada a linha de navios e mobiliários para casa. O slogan “With LEGO you can do more” foi lançado em 1975. Nessa década foram introduzidas várias linhas de LEGO, possibilitando inúmeras combinações, inclusive para crianças mais velhas.


A década de 80 começou com a inauguração do departamento de produtos educacionais, conhecido como Lego Dacta em 1989. Em 1982 ocorreu o lançamento do DUPLO Mosaic e Tecnic I, marcando o início dos produtos voltados para o mercado escolar. Na década de 90 a LEGO se consolidou como a décima maior produtora de brinquedos do mundo e primeira da Europa.

Em 1992, o maior castelo de LEGO foi montado ao vivo na televisão sueca, era composto por 400.000 peças. Em 1996 a empresa lança seu Site na Internet, entrando de vez na era da informática. Em 1999 inaugura o terceiro LEGOLAND na cidade de Carlsbad, Califórnia. A primeira loja própria da marca foi inaugurada em 2002 na cidade de Colônia na Alemanha, seguida das lojas nas cidades de Londres e Moscow. Em 2003 a empresa introduziu o novo slogan da marca “Play On”. A empresa é controlada pela família Christiansen até os dias de hoje.

Curiosidades


- A marca, quarta maior produtora de brinquedos do planeta, está presente fisicamente em 33 países, contando com 4 parques Legoland nas cidades de Billbund (Dinamarca), Windsor (Inglaterra), Carlsbad (Estados Unidos) e Gützburg (Alemanha), além de 5 fábricas (Dinamarca, Suíça, República Checa, Coréia do Sul e Estados Unidos).

- Ao longo dos seus mais de 60 anos de história, a empresa produziu mais de 320 bilhões de peças de LEGO, o equivalente a 52 peças por habitante do planeta.

- A cada 7 segundos um kit LEGO é vendido ao redor do mundo, isto equivale a 20 bilhões de peças produzidas anualmente, cerca de 2,3 milhões por hora.

- Existem 2.400 formatos diferentes de tijolos LEGO®.

- LEGO® é vendido em 130 países e mais de 400 milhões de crianças já brincaram com ele.

- São fabricados por ano 306 milhões de pneus para os carros e tratores LEGO®.

- Os tijolos são tão versáteis que a LEGO® calcula que apenas 6 tijolos de 2 x 4 podem ser arrumados em 915.103.765 maneiras diferentes.

- Os tijolos LEGO® estão disponíveis em 53 cores diferentes.

- Já foram produzidos 400 bilhões de tijolos LEGO® desde 1949.

- Os tijolos LEGO® vendidos em um ano dariam a volta ao mundo 5 vezes e 40 bilhões de tijolos empilhados chegariam a lua.

- Uma busca hoje no Google, retorna 70.300.000 resultados de LEGO®.

- LEGO® é muito mais do que um brinquedo, suas peças são usadas da pré-escola até a universidade para ensinar de tudo, de matemática e ciências até princípios de engenharia e tecnologia.

- LEGO® Star Wars é a linha mais bem sucedida de toda a história da LEGO®.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Tramandaí

Ainda não estou totalmente em férias. Algumas poucas reuniões de trabalho ainda exigirão a minha presença em Porto Alegre nesta próxima semana. Mesmo assim, antecipar alguns compromissos na semana que passou está me permitindo estar aqui. Estou em Tramandaí!! Minha família tem um apartamento aqui desde muito tempo. Fica na Av. Emancipação, na famosa Galeria do Comércio. O lugar é bem legal para quem gosta de agitação plena. Não é o meu caso. Qualquer atividade que aconteça nas calçadas desta avenida reverbera dentro da nossa sala de estar, mesmo não estando localizado no pavimento térreo. Ainda assim, todos os verões, religiosamente venho para cá fazer uma espécie de aquecimento para as férias. Gosto desta praia. Gosto de muitos lugares daqui. Não sou pescador mas sempre vou até a Plataforma de Pesca - a vista da praia estando ali em cima é bem legal -, gosto também daquela prainha de águas rasas que se forma protegida nos molhes do Rio Tramandaí, da lagoa, dos passeios de barco pelas lagoas, entre outros lugares. O Nordestão sempre faz com a gente uma espécie de batalha moral para ver quem resite mais, se é o desejo de se sentir na praia ou a visão estranha dos quarda sóis voando pela beira da praia. Perdemos sempre para a ventania. Mas não deixamos de vir. Pura teimosia que só encontra explicação em alguns aspectos da tradição gaúcha.

Chegamos na sexta-feira, próximo das 22h, depois de uma viagem daquelas onde a estrada mais parecia um colar de sinaleiras luminosas vermelhas. Várias vezes o trânsito simplesmente parou e nas proximidades dos pedágios longas filas se formavam. Neste final de semana os dias foram de pouco sol e muito vento. Mas muito vento mesmo!! Daqueles dias onde os guardas sóis permanecem fechados, mesmo quando um sol teimoso se faz presente. No sábado o dia se alternou entre períodos de sol e períodos nublados. E vento. No domingo o dia foi todo de sol!! E vento.

A Narinha voltou para Porto Alegre, pois ainda tem esta semana cheia no seu trabalho. Ela entre em férias somente no próximo final de semana. O Pedrinho já está em férias, então resolvi ficar mais uns dias por aqui. Para alegria dos avós, que vibraram diante da notícia da nossa permanência - quer dizer, não sei se da nossa permanência ou da permanência do Pedrinho!! Acho que vamos retornar na quarta-feira. Ou antes, se a ventania não parar ou se começar a chover!! O Pedrinho tem brincado muito ao longo destes dias!! Ele acorda, toma seu sagrado café da manhã - herança da mãe - e inicia sua jornada de grandes brincadeiras: leitura, desenhos, pintura, filminhos na tv, praia, soninho após o almoço, sorvetinho, praia, passeios, uffaaa, para então deitar para dormir. É contagiante ver a alegria dele para lá e para cá, fazendo amigos na beira da praia e construindo castelos de areia. Então, fiquei lembrando de quando eu era criança. E somente fazendo isto pude entender como é que ele conseguia ficar tanto tempo dentro daquela água gelada!! E com vento!!

Quando anoitece, vamos passear na Av. Emancipação. Tem tantas atividades legais que uma única noite não é suficiente para ver todas elas. Ainda não fui na Feira do Livro com o tempo que sempre gosto de ter para revirar os balaios em busca de alguma oferta legal. Quero ver se vou amanhã. E tem também a singela pescaria de lambarí na ponte. Coisas para preencher a semana. Todas as noites levamos o Pedrinho para um parquinho de diversões que tem aqui perto das plataformas de pesca do rio. Ele tem direito a 5 ingressos para andar onde quiser. O auto choque tem sido o preferido dele. Que bom, pois prefiro andar neste brinquedo do que ter que ficar andando na xícara maluca, no carrossel ou noutros brinquedos que me deixam com aquele inevitavel sentimento de que eu não deveria estar ali!

Coisas de quem está na praia. Curtindo um mar com águas nem tão clarinhas assim e muito geladas. E claro, já ia me esquecendo, com muito vento!!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A lógica da beleza

Certas formas capturam nosso olhar e mexem com nossos sentidos bem mais do que outras, e isso tem uma razão muito precisa e, ao mesmo tempo, encantadora como nos diz o arquiteto húngaro György Doczi no livro ‘O Poder dos Limites’ (ed. Mercuryo).

“Quando examinamos profundamente o padrão de uma flor, uma concha ou o balanço de um pêndulo, descobrimos aí a perfeição, uma ordenação incrível, que desperta em nós o maravilhoso que experimentávamos quando crianças. Algo infinitamente maior do que nós se revela e percebemos que o ilimitado emerge dos limites, dos padrões bem definidos”.

Por volta do final do século 12, o matemático italiano Leonardo Pisani, também chamado Fibonacci, depois de muitos cálculos e da observação da natureza, chegou a uma fórmula numérica provando que do retângulo perfeito derivam um quadrado e um outro retângulo perfeito, que, por sua vez, remetem a outro retângulo e a um quadrado perfeito e assim por diante.Com a repetição dessas formas geométricas – triângulos, retângulos, círculos – em proporções harmoniosas, cria-se uma série de espirais, que são a essência da vida com o nos assegura o arquiteto Roberto Pompéia, professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e estudioso das formas geométricas na natureza.

“Não existe vida sem a espiral. Ela é a transição, a transformação. Se não houvesse o movimento espiralado, as flores não se abririam, as galáxias não existiriam”.

E ele tem razão: o embrião humano é uma espiral – e vai se virando dentro do útero num movimento espiralado até nascer, assim como um broto de samambaia. Um caracol ou um bichinho minúsculo chamado náutilo, que nasce grudado a um grão de areia no fundo do mar, vão construindo suas casinhas na medida em que crescem. A seqüência dessas câmaras é uma espiral e, portanto, tem a proporção áurea.

Outros exemplos da natureza? As formações dos cristais de rocha e de gelo, a estrela do mar, a rosa, a petúnia, o jasmim-estrela, a teia de aranha, os rabos dos cavalos marinhos, os furacões! Tudo está organizado segundo os números e as fórmulas matemáticas, dizia Pitágoras, matemático grego do século 6 a.C.

“O homem tem dentro de si, no código genético, um determinado padrão também em forma de espiral. Somando-se a ele sua cultura, seus agregados sociais, suas divergências, seu modo de entristecer-se, sua maneira de amar e de enlevar-se, você perceberá, como resultado, uma organização e uma harmonia”. Luis Barco, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

O que faz o artista na pintura, na escultura é ler a natureza em toda a sua plenitude.

“As grandes idéias são intuitivas. Depois vem um teórico, por exemplo, o matemático Fibonacci, e explica. Mas uma coisa é certa: quando uma relação é harmônica, ela agrada aos olhos. E terá sido criada – ou recriada com base na observação! – por um intelectual ou por um jardineiro”, diz o professor Luis Barco.

A mesma proporção áurea é usada pelos artistas e arquitetos desde a antigüidade. É ela que cria a harmonia entre os traços de um rosto ou entre os elementos de um quadro. Por que a Monalisa é tão atraente? Porque seus olhos, sua boca, suas mãos, seu vestido obedecem a essas regras matemáticas, dominadas com perfeição pelo pintor italiano Leonardo da Vinci (século 16). Por que ir à Grécia é tão fascinante? Por que lá estão edifícios de rara beleza construídos com base no casamento sublime das formas geométricas.

E, pensando bem, isso não vale só para as formas, mas para tudo nesta vida. Afinal, respeitar e integrar as diferenças entre as pessoas, por exemplo, cria muita harmonia. Mais um motivo para prestar atenção nessa organização maravilhosa que rodeia todos nós e perceber a beleza de cada coisa, de cada instante.

Ainda nas palavras do arquiteto Doczi:

“A proporção áurea tem o poder de criar harmonia porque une diferentes partes, de tal forma que cada uma mantém sua identidade e ao mesmo tempo se integra ao todo. Ela nos mostra que as limitações não são apenas restritivas mas também criativas”.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Paul Jackson Pollock

Ontem vi novamente - e recomendo - aquele super filme sobre a vida e a obra do pintor Jacson Pollock, com o ator Ed Harris que, além de ser extremamente parecido com o pintor, sempre expressou uma obsessão pelo artista. Tanto que até aprendeu a imitar sua técnica singular, o "action painting", em que o pintor usa os pincéis não para aplicar a tinta, mas, sim, para jogá-la sobre a tela. Esta verdadeira fixação pela vida e pela obra do pintor resultou no filme Pollock (Estados Unidos, 2000). Nele Harris, de 50 anos, desempenha com notável segurança as funções de produtor, diretor e protagonista. E, como sempre, mostra-se exímio em encarnar personagens que mantêm sua energia intensa abaixo da superfície.

São retratados com fidelidade neste filme, também, a pintora Lee Krasner (representada pela atriz Marcia Gay Harden, que ganhou merecidamente o Oscar pelo papel). Lee, uma nova-iorquina muito despachada, percebeu de imediato que estava diante de um talento incomum. Apaixonada por Pollock – talvez mais pelo artista que pelo homem –, tomou as rédeas do relacionamento e da carreira. Foi por sua influência que Pollock ganhou um mecenas: Peggy Guggenheim, a milionária sobrinha do fundador do Museu Guggenheim. Peggy (interpretada com efervescência por Amy Madigan, mulher de Harris) adorava pintores. Casou-se com um – o surrealista Max Ernst – e usou seu dinheiro para lançar a carreira de vários outros, entre os quais Pollock. Pollock, o filme, é mais uma constatação do que uma tentativa de decifrar o enigma que é o artista. E nisso reside sua força.

Pollock foi um importande pintor dos Estados Unidos da América e referência no movimento do expressionismo abstrato. Nasceu em Cody, Wyoming, Estados Unidos da América, no dia 28 de Janeiro de 1912. Cresceu na Califórnia e no Arizona. Veio a falecer em 11 de Agosto de 1956. Em 1930 mudou-se para Nova York e estudou no Art Students League com o pintor regionalista Thomas Hart Benton.

Deu seus primeiros passos inserido na tradição da pintura realista, mas, depois de entrar em contato com a arte abstrata da vanguarda européia, elaborou os próprios meios de expressão. A partir de 1946, renunciou completamente aos elementos figurativos em seus quadros. Suas obras caracterizam-se por redes de linhas coloridas entrelaçadas que, pela transparência, desviam a atenção para o fundo do quadro (Catedral, 1974; Ritmo Outonal e Névoa Azul-Lavanda, 1950). Em suas últimas obras, realizadas nos anos de 1950 até sua morte por acidente, aprecia-se certa redução de colorido, o que é interpretado como reflexo de seus problemas psíquicos relacionados com o alcoolismo.

Em 1937 começou seu tratamento contra o alcoolismo e sofreu de esgotamento nervoso em 1938. Até 1941 trata-se com dois psicanalistas junguianos, que usam suas pinturas nas sessões de terapia. A partir de 1943 torna-se um dos iniciadores do movimento expressionista abstrato, com seu estilo caracterizado por grandes pinceladas aleatórias.

São dessa época as obras The Totem, Lesson I e The Blue Unconscious. Após 1947 inova utilizando tintas de alumínio e esmalte comercial em seus quadros. Em 1951 e 1952 pinta quase que exclusivamente em branco e preto, como se vê em Number Twenty-Three (1951) Echo (1952) e Number Seven (1952). Na época do desastre de carro que o mata, em Nova York, seu trabalho exerce grande influência sobre seus contemporâneos norte-americanos e europeus.

O expressionismo abstrato foi um movimento artístico com origem nos Estados Unidos da América, muito popular no pós-guerra. Ele foi o primeiro movimento especificamente americano a atingir influência mundial e também o que colocou Nova Iorque no centro do mundo artístico - posição previamente exercida por Paris, na França. O movimento ganhou este nome por combinar a intensidade emocional do expressionismo alemão com a estética antifigurativa das Escolas abstratas da Europa, como o Futurismo, o Bauhaus e o Cubismo Sintético. O termo foi usado pela primeira vez para designar o movimento americano em 1946 pelo crítico Robert Coates. Os pintores mais conhecidos do expressionismo abstrato são Arshile Gorky, Jackson Pollock, Philip Guston, Willem de Kooning, Clyfford Still e Wassily Kandinsky.

Polêmico, irrequieto, perturbador, diferente, entre outros, são apenas alguns qualificativos que se pode atribuir a ele, cuja vida tumultuada acabou marcando profundamente a história da arte moderna. Entre a pintura e o jazz, Pollock viveu emoções que o levaram da depressão ao êxtase e terminaram por transformá-lo em um alcoólatra.

De uma família com vários artistas, Pollock diferenciou-se imediatamente pelos seus métodos. Suas telas, imensas, eram pintadas antes de serem estiradas. Isso permitia que o artista praticamente caminhasse sobre a tela, fazendo parte dela durante o processo de pintar. Também essa pintura era diferente. Deixava a tinta escorrer de latas furadas ou as espalhava-as de outra forma, usando pedaços de madeira, ferramentas, escovas de dente, espátulas e outros processos, abandonando definitivamente o pincel.

Começou seus estudos em Los Angeles e depois mudou-se para Nova Iorque. Desenvolveu uma técnica de pintura, criada por Max Ernst, o 'dripping' (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre suas imensas telas. Os pingos escorriam formando traços harmoniosos e pareciam entrelaçar-se na superfície da tela. O quadro "One" de 1950 é um típicop exemplo dessa técnica. Pintava com a tela colocada no chão para sentir-se dentro do quadro. Partia do zero, do pingo de tinta que deixa cair na tela e, a partir disto, elaborava uma obra de arte.

O fato de permitir que a tinta manchasse a tela à partir de latas furadas não faz com que a pintura de Pollock seja fruto da casualidade.

"Quero expressar meus sentimentos mais do que ilustrá-los... Eu posso controlar o fluir da tinta; não há acaso, assim como não há começo nem fim".

Depois de enfrentar a recessão na década de 30, o pintor viu os Estados Unidos serem invadidos por artistas europeus fugindo da guerra. Encontrou muitas dificuldades para vender os seus quadros nesse período tumultuado e acabou criando uma dependência do álcool que terminaria por matá-lo tempos depois.

Mesmo em dificuldade, Pollock nunca deixou de ser um inovador: misturava areia e vidro moído na tinta para obter efeitos especiais. É considerado um dos mais importantes personagens da pintura pós-guerra e sua morte trágica e imprevista o tornou famoso em todo o mundo. Já o era, antes de morrer.

Adolescente com problemas escolares, desde cedo se envolveu com o álcool e jamais conseguiu libertar-se dele. Fez tratamento psiquiátrico algumas vezes, mas sempre retornava ao vício. Na década de 40 conheceu Lee Krasner, pintora abstrata muito talentosa, com quem se casou e que o apresentou a pessoas importantes no mundo da arte. Lee abandonou praticamente sua carreira para dedicar-se a Pollock, ajudando-o na luta contra o álcool. Por causa dele foram morar em um local afastado, procurando criar melhores condições nessa luta. Apesar de todo o esforço, o artista sempre retornava a bebida. A separação acabou acontecendo e foi mais um motivo depressivo para o artista.

Lee Krasner foi quem realmente impulsionou a carreira de Pollock, tanto pelo apoio emocional, como pelas apresentações no mundo da arte. Graças a ela, o artista conseguiu rendimentos para dedicar-se inteiramente a pintura. Em 1949, a revista Life, com mais de 5.000.000 de exemplares de circulação, o colocou como uma personalidade em destaque. Subitamente, a agenda tornou-se cheia e os problemas financeiros desapareceram. Foi por sua influência que Pollock ganhou um mecenas: Peggy Guggenheim, a milionária sobrinha do fundador do Museu Guggenheim. Peggy adorava pintores. Casou-se com um – o surrealista Max Ernst – e usou seu dinheiro para lançar a carreira de vários outros, entre os quais Pollock.

Lee também era talentosa, mas pôs seu trabalho de lado para incentivar o marido. Agüentava suas explosões, atenuava as afrontas a que ele submetia os amigos e, cansada de seu alcoolismo, obrigou-o a isolar-se com ela no campo. Foi por causa de Lee também que Pollock passou quase três anos sóbrio, no final dos anos 40. É dessa fase que datam suas melhores obras, e foi nela que Pollock aprimorou o "action painting".

Tudo poderia parecer bem, mas Pollock jamais aceitou a separação da ex-mulher. Tinha uma jovem amante muito bonita, mas vivia depressivamente, até a morte súbita no trágico acidente.

A arte de Pollock combina a simplicidade com a pintura pura e suas obras de maiores dimensões possuem características monumentais. Com Pollock, há o auge da pintura de ação (action painting). A tensão ético-religiosa por ele vivida o impele aos pintores da Revolução Mexicana. Sua esfera da arte é o inconsciente: seus signos são um prolongamento do seu interior. Apesar de ter seu trabalho reconhecido e com exposições por vários países do mundo, Pollock nunca saiu dos Estados Unidos.

Sua pintura demonstra a assimilação de motivos de Pablo Picasso e Joan Miró, assim como do muralista mexicano José Clemente Orozco. As influências que agiram sobre Pollock são muitas e variadas. Sobre ele já se disse, antes ainda do apogeu de sua carreira, que:

"O pintor mais poderoso da América contemporânea e o único que promete ser um dos grandes é gótico, mórbido e extremo discípulo do cubismo de Picasso e do pós-cubismo de Miró, com toques de Kandinsky e de inspiração surrealista. Chama-se Jackson Pollock".

Faltou nessa frase citar a influência dos muralistas mexicanos e dos conceitos psiquiátricos que aprendeu durante os tratamentos de desintoxicação, os quais, declaradamente, reconhece como fatores que mudaram o seu pensamento.

O seu nome é um marco na pintura pós-guerra não só americana, mas em todo o mundo. Sem dúvida alguma, ainda é um dos pintores americanos mais influentes dos tempos atuais. As suas pinturas perdem força quando olhadas através de fotografias, o que acontece muito freqüentemente com alguns pintores. Às vezes acontece exatamente o contrário, mas não é o caso.

O primeiro vislumbre da fama para o artista veio através de fotografias dele trabalhando, da forma enérgica dos seus gestos no ato de pintar. Há uma certa dramaticidade nessas fotos que realmente impressiona.

"Quando estou a pintar não tenho consciência do que faço. Só depois de uma espécie de 'período de familiarização' é que vejo o que estive a fazer".

Talvez tenha sido assim também com a vida real, com os seus movimentos do dia-a-dia. O gênio nos enche de admiração e nos deixa um grande legado. O homem nos passa a impressão de que, fora a arte, a vida foi uma grande tentativa que não deu certo. Embora não possamos julgar se isso de fato tem alguma verdade, é essa a emoção que nos passa.

Pollock era um sujeito tão atormentado que, para ele, nem comprar pão e leite no armazém da esquina era uma tarefa livre de angústia. Tinha ainda péssimos modos, era de um egoísmo insondável e, quando entornava uns copos a mais, tornava-se agressivo e abusivo.

Na contra-mão disto era, também, um artista extraordinário. Não só se tornou o maior expoente do movimento batizado de Expressionismo Abstrato – a arma com que os americanos roubaram dos europeus a primazia nas artes plásticas, nos anos 40 e 50 –, como talvez seja o mais fabuloso pintor nascido nos Estados Unidos.

Pollock dizia que pintava paisagens – mas as suas paisagens interiores. "Eu sou a natureza", declarou certa feita. Até hoje, claro, não falta quem diga que qualquer criança pode jogar tinta na tela e chamar isso de arte. O vigor da obra de Pollock, contudo, desmente tais simplificações.

Em 1951, enquanto protagonizava um célebre documentário, ele cismou que tinha sucumbido aos aspectos mais atléticos de sua arte. Acreditando-se afinal um farsante, voltou a beber e entrou na etapa final de sua autodestruição.
Aos 44 anos, em Cody, em agosto de 1956, quando voltava dirigindo embriagado de uma festa, morreu em um acidente de carro. Ele simplesmente chocou-se com uma árvore. Há quem sugira que, propositalmente, provocou o acidente. Nunca saberemos com certeza.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dia de sábado

Vinicius de Moraes

Porque hoje é sábado, comprei um violão para minha filha Susana, a fim de que ela aprenda dó maior e cante um dia, ao pé do leito de morte de seu pai, a valsa "Lágrimas de Dor", de Pixinguinha – e seu pai possa assim cerrar para sempre os olhos entre prantos e galgar a eternidade ajudado pela mão negra e fraterna do grande valsista...

Porque hoje é Sábado, desejarei ser de novo jovem e tremer, como outrora, à idéia de encontrar a mulher casada, de pés de açucena; desejarei ser jovem e olhar, como outrora, meus bíceps fortes diante do espelho...

Porque hoje é Sábado, desejarei estar num trem indo de Oxford para Londres, e à passagem da estação de Reading lembrar-me de Oscar Wilde, a escrever na prisão que o homem mata tudo o que ele ama...

Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai...

Porque hoje é Sábado, desejarei receber uma carta súbita, contendo sobre uma folha de papel de linho azul a marca em batom de uns grossos lábios femininos, e ver carimbado no timbre o nome Florença...

Porque hoje é Sábado, desejarei que a lua nasça em castidade, e que eu a olhe no céu por longos momentos, e que ela me olhe também com seus grandes olhos brancos cheios de segredo…

Porque hoje é Sábado, desejarei escrever novamente o poema sobre o dia de hoje, sentindo a antiga perplexidade diante da palavra escrita em poesia e como dantes, levantar-me com medo da coisa escrita e ir olhar-me ao espelho para ver se eu era eu mesmo...

Porque hoje é Sábado, desejarei ouvir cantar minha mãe em velhas canções perdidas, quando a tarde deixava um alto silêncio na casa vazia de tudo que não fosse sua voz infantil...

Porque hoje é Sábado, desejarei ser fiel, ser para sempre fiel; ser com o corpo, com o espírito, com o coração fiel à amiga, àquela que me traz no seu regaço desde as origens do tempo e que, com mãos de pluma, limpa de preocupações e angústia a minha fronte imensa e tormentosa...

Setembro de 1953


Para uma menina com uma flor
José Olympio Editora
17a edição

Rio de Janeiro - 1988
Páginas 75 e 76