quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A mão inteligente

Claudio de Moura Castro

Entre os 10 e os 16 anos, como frequentava uma escola medíocre, de interior, em vez de estudar assuntos chatos e mortos, passava o tempo livre nas oficinas de manutenção de uma fábrica local. Guiado pelos velhos mestres, serrei, preguei, limei e bati martelo nas forjas. Deslumbrava-me com a vida e os desafios das oficinas. Passados os anos, descobri que a minha inteligência se desenvolveu mais lidando com problemas na bancada do que nos bancos escolares.

A percepção de que se aprende com as mãos é moeda corrente nas corporações de ofício europeias, de origem medieval. Para os Compagnons du Devoir (França), "o conhecimento mora na cabeça, mas entra pelas mãos". Ou seja, "a inteligência da mão existe" (J. Berger). Segundo os compagnons, o homem teria duas inteligências, uma especulativa e outra prática, por isso tem uma cabeça e duas mãos. Para eles, lógica se aprende resolvendo problemas de torneiras ou encaixes.

Ruminações de serralheiros e carapinas? Nem tanto, pois o filósofo grego Anaxágoras afirmou: "Por ter mãos, o homem é o mais inteligente dos animais". Ou, se queremos artilharia pesada, que tal Kant, para quem a "mão é a janela da mente"? O papel do lado prático da escola aparece em Montessori e outros, ganhando força na escola de Rudolf Steiner. Infelizmente, a escola foi atropelada pelo peso do academicismo, ficando meio artificial. Foi monopolizada por gente voltada para a "inteligência especulativa". O uso das mãos sumiu da escola. Com a miragem do "knowledge worker", ter-se-ia tornado um apêndice subalterno, cuja única função é apertar teclas.

Mas eis que o assunto desperta, com novas roupagens e escoltado pela melhor ciência neurofisiológica. Charles Bell fala da "mão inteligente". De fato, descobriu-se que a mão se comunica com o cérebro por múltiplos circuitos neuronais, enleando-se promiscuamente com os da inteligência. Ou seja, foi mapeado um acesso privilegiado da mão ao pensamento. Alguns pesquisadores afirmam que, dispondo de um instrumento tão sofisticado e sensível, a mão do homem fez o cérebro evoluir. Aceitemos, pois, como séria a teoria de que aprendemos com as mãos.

Duvidam? Mostre-se a uma pessoa um canivete, de todos os ângulos, com todos os detalhes. Aparentemente, tudo foi visto. Mas, inevitavelmente, virá o pedido: "Deixa eu ver" - levando à cuidadosa manipulação do objeto. Se os olhos já haviam visto tudo, faltava às mãos enxergar.

Diante disso, por que deixa de ser usado na escola esse grande livro-texto que são as mãos?

Aprendemos ao segurar, medir, pesar e desmontar. Aprendemos quando usamos ferramentas, quando resolvemos os mil problemas de construir alguma coisa ou de consertar um aparelho. Não creio que deslindar sujeitos e predicados em Os Lusíadas seja mais educativo do que deduzir logicamente por que a lâmpada não acende. Pesquisar um circuito elétrico, com diagramas e aparelhos de testes, é analiticamente tão denso quanto muito do que se pretende fazer na escola. Além disso, obriga aos múltiplos saltos entre a abstração do circuito no papel e os componentes do circuito de verdade. É assim que se aprende teoria, pendulando entre ela e a prática, num vaivém permanente.

Perry Wilson, um estudante americano, tinha dificuldades medonhas em Matemática. Tropeçou sucessivamente ao longo do curso, acabando vencido no início do seu curso superior. Frustrado, foi aprender carpintaria, para fazer casas. Como as casas daquele país são feitas pelo próprio carpinteiro, incluindo muito trabalho com plantas e cálculos, logo descobriu que a mesma Matemática que o havia maltratado era agora óbvia e fácil. Impressionado com a descoberta, criou um programa chamado "If I had a hammer", no qual os alunos participantes constroem uma cabana de madeira no pátio da escola. Mas como acontece com as casas de verdade, antes de serrar e pregar há muita planta e muita conta para fazer, além de outros conhecimentos requeridos. Surpresa! Em poucos dias, observa-se um substancial aumento nas notas de Matemática dos alunos participantes.

Cabe uma advertência, pois não se trata de exumar a disciplina de "Trabalhos Manuais", já desmoralizada pelo seu título rasteiro e pouco casando pensamento e ação. No tempo limitado da escola, é preciso escolher atividades em que haja uma interação feliz e fértil entre a mão e a cabeça. Recortar figuras de revistas é manual, mas intelectualmente pobre. Demonstrar um teorema é um exercício mental demasiado distante do mundo das coisas. Mas o Teorema de Pitágoras pode ser aprendido na rua. Por exemplo, como traçar no solo um ângulo reto, dispondo apenas de um pedaço de barbante?

A abstração é a culminância do desenvolvimento intelectual do homem. Mas a capacidade de operar na estratosfera das teorias não vem pronta de fábrica. De fato, o aprendizado de teorias rarefeitas arrisca-se a virar pura decoreba se não começar vendo, pegando e medindo. O tal "knowledge worker", tão de moda, precisa ser educado no concreto e no real, depois é que vem o descolamento progressivo do sensorial.

As atividades escolares deveriam ser escolhidas de forma a criar o máximo de oportunidades de usar as mãos para aprender. Como, de uma forma ou de outra, tais atividades vêm sendo feitas por incontáveis anos, não se trata de inventar, mas de recuperar o melhor que já apareceu.

O que era uma percepção intuitiva de alguns hoje percebemos ser ciência respeitável, demonstrando que a mão é inteligente e, portanto, é utilíssima no aprendizado, tanto do prático como do teórico. Por que a nossa escola insiste em refugiar-se nas brumas de um intelecto que ignora a riqueza intelectual das mãos?

O Estado de São Paulo
14/12/2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ciclo Projeto & Obra

Instituto de Arquitetos do Brasil - RS



ANTES DE MAIS NADA CONSTRUÇÃO

Definir o que seja Arquitetura na atualidade, em um mundo complexo e sujeito a mudanças tão aceleradas, não é tarefa fácil. Entretanto, há um notável consenso sobre a definição dada pelo Arquiteto e Urbanista Lúcio Costa (1902-1998):

"Arquitetura é antes de mais nada construção, mas, construção concebida com o propósito primordial de ordenar e organizar o espaço para determinada finalidade e visando a determinada intenção. E nesse processo fundamental de ordenar e expressar-se ela se revela igualmente arte plástica, porquanto nos inumeráveis problemas com que se defronta o arquiteto desde a germinação do projeto até a conclusão efetiva da obra, há sempre, para cada caso específico, certa margem final de opção entre os limites - máximo e mínimo - determinados pelo cálculo, preconizados pela técnica, condicionados pelo meio, reclamados pela função ou impostos pelo programa, - cabendo então ao sentimento individual do arquiteto, no que ele tem de artista, portanto, escolher na escala dos valores contidos entre dois valores extremos, a forma plástica apropriada a cada pormenor em função da unidade última da obra idealizada."

COSTA, Lúcio (1902-1998). Considerações sobre arte contemporânea (1940). In: Lúcio Costa, Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995. 608p.il.

Neste sentido, a divulgação e difusão de nossa produção são fundamentais para a compreensão da Arquitetura na atualidade. O Ciclo Projeto & Obra foi estruturado a partir de uma seleção pública de trabalhos, da qual participei como membro da comissão de seleção junto com outros colegas. Foram selecionados quase 50 projetos e obras realizados nos últimos 5 anos por arquitetos e urbanistas gaúchos ou radicados no Rio Grande do Sul, para sua apresentação pública em datas reservadas no projeto cultural Quarta no IAB, do Departamento do IAB no Rio Grande do Sul. Os trabalhos selecionados reúnem uma significativa quantidade de projetos e obras de arquitetura e urbanismo de excelência que incentivam o debate aberto sobre a nossa produção atual e sobre os rumos da arquitetura gaúcha, e permite através deste catálogo e de outras publicações, a divulgação desta produção entre os profissionais e para toda a sociedade gaúcha.

A análise do conjunto dos trabalhos apresentados nos permite algumas conclusões acerca da nossa produção arquitetônica. A primeira, flagrante, é a qualidade dessa produção. Não apenas a qualidade dos projetos, mas também a competência do arquiteto construtor, executando no canteiro de obras seus desígnios. Como disse Lúcio Costa na citação acima, “arquitetura é antes de mais nada construção”, e o material reunido nesse catálogo permite identificar uma relação direta entre o projetista e o construtor da obra, coerente com a afirmação do mestre Lúcio. A segunda conclusão é a grande diversidade das áreas de atuação profissional, característica de nossa formação generalista, expressa na variedade dos trabalhos apresentados. Diversidade de áreas de atuação, de locais e origens dos arquitetos, de programas, de conceitos formais, de arranjos funcionais, de soluções técnicas e construtivas, de linguagens e estilos, de escalas de intervenção, todos com uma característica comum: a qualidade. Uma possível terceira conclusão é a disparidade entre os projetos e obras apresentados quando comparados com a grande maioria das construções e espaços de nossas cidades. É de fácil percepção, a partir da análise atenta e criteriosa dos projetos apresentados, a diferença entre esses trabalhos e as obras que nos são impostas diariamente pelo poder público ou pelo mercado imobiliário, ambos desatentos, para dizer o mínimo, aos atributos da qualidade formal e espacial, e da excelência da arquitetura e do urbanismo. As administrações públicas, enquanto seguirem priorizando o menor preço em suas licitações, seguirão condenando as nossas cidades e edifícios públicos à banalidade, sendo mal projetados, mal detalhados, mal orçados e, por consequência, mal construídos. E o mercado imobiliário, enquanto seguir acriticamente sendo comandado por profissionais de outras áreas e marqueteiros, igualmente seguirá nos impondo seus conceitos superficiais, vulgares e gananciosos.

A arquitetura é arte, ciência e ofício. Arte, na medida em que ultrapassa seu papel de abrigo, quando supera a esfera prática e começa a dizer algo sobre os aspectos culturais de uma civilização. É ciência, na medida em que se vincula aos processos e métodos científicos de proposição e análise do comportamento humano e das suas necessidades mais elementares, da produção eficiente e sustentável no canteiro de obras, do controle do consumo energético, dos novos materiais e técnicas construtivas de baixo impacto ambiental. E é ofício, principalmente, pois a partir das ações concretas diárias, os arquitetos e urbanistas criam e transformam as nossas cidades e vivem dignamente com o fruto do seu trabalho inovador e empreendedor.

Os trabalhos apresentados nos permitem concluir que os profissionais da área estão preparados para oferecer à sociedade as soluções que essa necessita. Precisamos estar mais presentes e atuantes não apenas na nossa profissão e em nossas entidades, mas também no convencimento da sociedade da nossa utilidade e competência.

Ciclo Projeto & Obra 2015/2016
Revista Espaço - Iab RS
Arquitetura, Urbanismo, Cidade, Cultura
Dezembro de 2016 - Edição Especial
Página 56

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

IABRS e SAERGS - 2017|2019

Posse das novas diretorias

Neste sábado, dia 17 de dezembro, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB RS) e o Sindicado dos Arquitetos no Estado do RS (SAERGS) realizam a cerimônia de posse de suas novas diretorias para o triênio 2017/2019 e comemoram o Dia do Arquiteto e Urbanista. O evento será realizado a partir das 11 horas, no Solar do IAB RS, na Rua General Canabarro 363, no Centro Histórico de Porto Alegre.

Na ocasião, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RS - CAU/RS abrirá no local uma exposição do acervo de seu memorial, com importantes registros, documentos e obras de arquitetos gaúchos. Já o IAB RS lança as edições especiais da Revista Espaço "Projeto & Obra" e "Prêmio Memória da Arquitetura da cidade de Rio Grande".

O dia também será de homenagens e premiações. O Sindicato dos Arquitetos do RS entrega o Prêmio Arquiteto e Urbanista do Ano SAERGS 2016, que completa 20 anos. A premiação, em cinco categorias, reconhece profissionais pelas suas atividades de alcance científico, político, social e tecnológico.

Os colegas homenageados são:
Arquiteto e Urbanista do Ano 2016
Setor Público - Luiz Merino de Freitas Xavier
Setor Privado - Ricardo Ruschel - Smart!
Jovem Arquiteto - Otávio Riemke - RMK!
Homenagem especial - Edgar do Valle
Homenagem Honorífica - Juarez Ribeiro

O IAB RS homenageará os arquitetos Roberto Py Gomes da Silveira (in memoriam) e Cesar Dorfman, com o título de "Arquiteto Benemérito", pelos serviços prestados à arquitetura gaúcha, como primeiro Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul - CAU/RS, e primeiro Conselheiro Federal no Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - CAU BR, respectivamente. Os proprietários, durante décadas, da Livraria do Arquiteto, Ignácio Benites e Cristina Cordovero Moreno, recebem a homenagem de "Arquiteto Honorário".

Após o encerramento da cerimônia o Bar do IAB estará aberto aos convidados para a comemoração do Dia do Arquiteto e Urbanista, celebrado no dia 15 de dezembro.

SERVIÇO
O que: Dia do Arquiteto e Urbanista e Posse das diretorias do IAB RS e SAERGS
Quando: 17 de dezembro (sábado), às 11 horas.
Onde: Solar do IAB RS (Rua General Canabarro 363, Centro Histórico de Porto Alegre)

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA:
11h00 - Recepção dos convidados / Abertura Exposição CAU/RS
11h30 - Início da Solenidade / composição da mesa com autoridades
12h15 - Homenagem do IAB RS para arquitetos gaúchos - Cristina Moreno e Ignácio Benites, Cesar Dorfman e Roberto Py (conjunta)
13h00 - Prêmio Arquiteto e Urbanista do Ano - SAERGS
- Vídeo de Abertura do Saergs
- Vídeo por Categoria
- Vídeo por Premiado
- Fala dos Premiados
13h45 - Posse das novas diretorias do IAB RS e SAERGS
14h30 - Coquetel para os convidados
15h30 - Início da Festa do Dia do Arquiteto + abertura do Bar do IAB (aberto ao público em geral)
16h00 - Show da banda "Inserções em Circuitos Ideológicos" (Jazz/Fusion)
17h00 - Show da banda "Coxinhas e os Petralhas" (Pop Rock)

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Croquis Urbanos 6

Desenho de Observação

Já estamos indo para o sexto encontro do grupo Croquis Urbanos. Que beleza!! Estão todos convidados: desenhistas iniciantes, amadores, estudantes e profissionais. Nosso próximo encontro será na antiga Cervejaria Brahma – Largo Theo Wiederspahn (Centro Cultural Total). Levem seus materiais para desenho, convidem seus amigos e vamos aprender uns com os outros!



Croquis Urbanos 6
Data: 11 de Dezembro de 2016 (domingo)
Horário: das 10:30h às 13h
Local: Cervejaria Brahma – Largo Theo Wiederspahn (Centro Cultural Total)

Não percam!

sábado, 26 de novembro de 2016

Atelier II - FauUlbra - 2016/2

PAINEL FINAL

Nos dias 13 e 14 de dezembro (terça-feira e quarta-feira) ocorrerão as bancas de apresentação dos Trabalhos de Conclusão do Curso de Arquitetura e Urbanismo da FauUlbra. Nestes dias, nos turnos da tarde e noite, serão apresentados 10 trabalhos com os mais diversos temas nas áreas de arquitetura, paisagismo e urbanismo. As bancas são abertas ao público e ocorrerão na sala 210 do prédio 14 (FauUlbra). Em paralelo ao desenvolvimento das bancas os visitantes terão a oportunidade de ver os 10 trabalhos expostos na sala 316 do prédio 14.
Não percam!

Cronograma das atividades:

13/12
Terça-feira

Alunos:
Luciane S. de Lemos Costa
Evandro Almeida
Marcelo José dos Santos
Nathalia Simões dos Santos
Vera dos Santos Pereira

Banca:
Prof. Arq. Daniel Pitta Fischmann (PucRS / Ipa)
Profa. Arqa. Patrícia de Freitas Nerbas
Prof. Arq. Paulo Ricardo Bregatto

14/12
Quarta-feira

Alunos:
Bruna Serafini Rossi
Gabriela Sachini
Narjara Scaravonatti
Diônata Santos da Silva
Nicole Ghisleni Pinto

Banca:
Prof. Arq. Fabio Bortoli (UniRitter)
Prof. Arq. Rodrigo Allgayer
Prof. Arq. Paulo Ricardo Bregatto