segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Formatura da Ulbra - 2010/1

Discurso do Paraninfo

Meus queridos afilhados!

Passei um ótimo final de semana lembrando da linda cerimônia de formatura de vocês. Foi com muita alegria, satisfação e orgulho que acompanhei a jornada de vocês ao longo destes dois semestres que passamos juntos. Foi contagiante olhar para todos vocês e ver a alegria de cada um, pela grande conquista da tão sonhada conclusão do curso.

Mais uma vez, muito obrigado pelo honroso convite para ser o paraninfo desta turma! Lhes deixo, no texto abaixo, o discurso para que vocês possam rever e refletir, com muita atenção, a última lição de casa.

Um super abraço e beijo carinhoso para todos vocês!!

DISCURSO DO PARANINFO

Componentes da mesa já citados.
Familiares e amigos aqui presentes nesta sexta-feira, 13, com muita sorte, alegrias e festas.
Meus queridos colegas arquitetos e urbanistas:

Desde o momento em que recebi o convite para ser o paraninfo desta turma, a alegria e a emoção tomaram conta do meu coração. Não somente pela oportunidade de estar, neste instante, junto desta turma, pela qual tenho um grande carinho e onde fiz grandes amigos, desde o tempo, já distante, em que foram meus alunos, na primeira metade do curso, mas, principalmente, pela grande e singular oportunidade de apresentar à sociedade, aqui representada por todos vocês, esta turma de novos e bem preparados arquitetos e urbanistas.

Sei que o convite para fazer uso desta tribuna foi originado por aqueles sentimentos mútuos de amizade, simpatia, companheirismo e respeito, sempre tão presentes durante o tempo passado em que convivemos nos ateliers e, principalmente, ao longo destes últimos dois semestres em que cursamos juntos o tão esperado e sonhado trabalho de conclusão de curso.

Sinto muita alegria e muito orgulho por ter participado de suas formações e por ver todos vocês com esta satisfação imensa estampada em seus rostos. Deste lugar que vocês se encontram e que sentaram ainda estudantes, ao término desta cerimônia, se erguerão arquitetos e urbanistas e serão, portanto, os mais dignos herdeiros das valiosas qualidades e honrosas tradições do nosso ofício. Mais do que isto, receberão, também, a grande e contínua tarefa de fortalecer, com o fruto do vosso trabalho, a cultura arquitetônica local e nacional e o fortalecimento dos princípios da ética para o desenvolvimento da nossa profissão, sempre com ações honestas e colaborativas, tendo em vista as necessidades do mercado de trabalho e da sociedade em que vivemos.

Por esta razão, meus arquitetos, lhes deixo como última lição de casa o desafio de estudarem e refletirem profundamente sobre algumas virtudes básicas fundamentais que expressem os nossos valores morais, não somente para o exercício da nossa profissão, mas, principalmente, da nossa condição e obrigação primária como cidadãos, perante os nossos pares e perante a sociedade.

Fazendo isto vocês estarão tentando compreender o que deveríamos fazer, ou ser, ou viver e medir, pelo menos intelectualmente, o quanto próximos ou distantes estamos de cada um dos seus significados. Os valores morais agem como um polidor da alma, um saber viver de si para consigo, uma etiqueta de vida interior, um código de nossos deveres, um cerimonial do essencial, pois bem sabemos que é praticando as ações justas que nos tornamos justos, praticando as ações moderadas que nos tornamos moderados e é praticando as ações corajosas que nos tornamos corajosos.

Para tal, escolhi as seguintes virtudes: senso ético, leveza, coragem e alegria.

A escolha destas virtudes e não de outras, não quer representar aqui algum juízo de valor de quem escolhe umas em detrimento de outras tantas, que para alguns possam ser mais importantes. Apenas, na minha visão, as escolhidas são aquelas que, neste momento, são as mais urgentes e devem, portanto, receber de cada um de vocês a devida atenção como forma de fortalecimento dos laços de união entre cada um de vocês e seus maiores ideais por vir.

Inicio pela ética, por ser a ética uma característica inerente a toda ação humana e, por esta razão, um elemento vital na produção da realidade social. O mundo atual, perturbado por criações humanas, requer mudanças urgentes. A capacidade humana de criar o artificial parece ter transcendido a nossa habilidade de coexistir com a natureza. A crise energética internacional e o desequilíbrio mundial do meio ambiente assumem patamares preocupantes, exigindo dos novos arquitetos e urbanistas atitudes inovadoras e sustentáveis.

O mercado de trabalho, com suas inumeráveis oportunidades, mas, também, com suas perigosas armadilhas, carece urgentemente de nova formatação, assim como, outras tantas oportunidades de trabalho, ainda adormecidas aguardando por nós, necessitam ser lapidadas com afinco, inovação, empreendedorismo e ética.

Todo homem possui um senso ético, uma espécie de "consciência moral", estando constantemente avaliando e julgando suas ações para saber se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas. Existem sempre comportamentos humanos classificáveis sob a ótica do certo e errado, do bem e do mal.


Embora relacionadas com o agir individual, essas classificações sempre têm relação com as matrizes culturais que prevalecem em determinadas sociedades e contextos históricos. Portanto, a ética está relacionada à opção, ao desejo de realizar a vida, mantendo com os outros relações justas e aceitáveis e está fundamentada nas idéias de bem e virtude, enquanto valores perseguidos por todo ser humano e cujo alcance se traduz numa existência plena e feliz.

Neste momento em que vocês estão prestes a sair da nossa escola para enfrentar a vida profissional, torna-se necessário reconhecer que o futuro de cada um de vocês se funde com o futuro da sociedade em que estamos todos inseridos. A alegria, a felicidade, o sucesso, a segurança e a paz que, individualmente, queremos ter será sempre aquela que conseguirmos construir para todos.

Na seqüência lhes proponho uma constante reflexão sobre a importância da leveza. Para esta nova jornada, que hoje se inicia, é preciso aprender, também, a ser leve, principalmente, diante de alguns próximos desafios que poderão parecer densos e intransponíveis como as pedras. As nossas próximas escolhas, principalmente aquelas que apreciamos e escolhemos justamente pela leveza, podem se revelar, numa análise mais aprofundada, de um peso insustentável.

É neste exato momento que temos que mudar de ponto de observação. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou para o irracional. Apenas temos que aprender a enxergar o mundo sob outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento, outras formas de abordagem do problema. A leveza, neste caso, está muito mais associada à precisão e à determinação dos nossos atos do que ao que é vago ou aleatório. Está muito mais associada à consciência da gravidade sem peso do que com a incapacidade de sustentação. Está mais relacionada ao reconhecimento da importância das causas do que da necessidade urgente de suportar as conseqüências.

Por esta razão é preciso saber ser leve como o pássaro. Leve como o pássaro e não como a pluma. Como o pássaro altivo que segue seu extinto, livre no ar, na busca autônoma das direções a seguir, ao contrário da frágil pluma que dependerá sempre da direção de uma brisa, para poder planar, por mais leve que seja, mas que não é nunca determinada pelo seu próprio desejo.

Como sustentação para as virtudes anteriores vem a coragem. Portanto, desejo-lhes acima de tudo muita coragem, pois a coragem nos dá a base sólida para sabermos superar todas as dificuldades que virão por conseqüência da escolha dos nossos próximos desafios.

Pois as dificuldades virão...

Desejo-lhes coragem para agüentar e durar, coragem para viver, coragem para suportar, para combater, para enfrentar, para resistir, coragem para perseverar. A coragem não se refere apenas ao futuro, ao medo ou à ameaça. Refere-se, também, ao presente, e sempre está ligada à vontade, muito mais do que à esperança. Afinal, só esperamos o que não depende de nós, só queremos o que depende de nós. É por isto que a esperança, ao meu ver, só é uma virtude para aqueles que aguardam imóveis a chegada de tudo, ao passo que a coragem é uma virtude para qualquer um. A coragem não é um saber, mas uma decisão. Não é uma opinião, mas uma atitude.

Por fim e para tornar o caminho que hoje se inicia mais doce, devemos plantar e cultivar sempre a alegria. A alegria é o estado de saúde que devemos sempre buscar, mais que a própria felicidade, pois a alegria não é um estado de espírito como se supõe ser a felicidade, mas sim uma sensação. Alegria, coisa tão incerta como o vento que sopra lá fora, que tem dias que vem, dias que não vem, que às vezes é tão forte que vira tufão, outras parece apenas brisa suave, que pode vir do sul ou do norte, do leste ou do oeste, mas que vem, queiramos ou não, na hora ou do jeito que bem entender...

Mais uma vez muito obrigado por este convite!!! Para mim, foi um grande privilégio e uma honra imensurável caminhar com vocês até aqui!!

Que esta saudade, que a partir de agora começa a povoar os nossos corações, lhes tragam sempre a doce lembrança dos momentos felizes em que estivemos juntos e lhes tragam, também, a certeza de que esta escola sempre será de vocês e sempre estará com suas portas abertas para recebê-los com suas grandes vitórias, alegrias e novas dúvidas.

Muito sucesso nesta próxima jornada!
Daqui para frente, força e honra!
Muito obrigado!!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Hundertwasser

Teoria das cinco peles

“Eu sou tolerante. Mas revolto-me. Acuso. É a minha obrigação. Estou sozinho. Por trás de mim não há qualquer ditadura, qualquer partido, qualquer grupo, nem qualquer máfia. Nem um esquema intelectual coletivo, nem uma ideologia. A revolução verde não é uma revolução política. É suportada pela base e não é nem minoritária nem elitista. É uma evolução criadora em harmonia com o curso orgânico da natureza e do universo.”


Foi por intermédio do meu querido amigo Fernandão (aluno do curso de arquitetura e urbanismo da Ulbra, filósofo e ativista das causas ambientais) que eu tomei conhecimento mais aprofundado da obra de Hundertwasser e sua teoria das 5 peles. A razão que me levou a estudar a obra deste artista não poderia ser mais emergencial: simplesmente o Fernandão trouxe este assunto para seu trabalho final de graduação, sob minha coordenação.

Num primeiro momento, desespero total. Logo eu que sempre me alinhei limitada e convictamente aos racionalistas, me vi desconfortavelmente curioso com a dimensão naturalista da obra deste artista e filósofo com suas indagações e provocações sobre estética e beleza. A força midiática, massificada e acrítica da arquitetura contemporânea descontextualizada e desculturalizada encontra na obra de Hundertwasser, principalmente nos dias atuais, o solo fértil para as necessárias reflexões sobre identidade, espaço e sentido de lugar. Em conseqüência disto, a partir das primeiras leituras, as reações naturais de pré-conceitos deram rapidamente lugar ao desejo irrefreável de estudar e conhecer a obra e a maneira de pensar e agir deste artista. E é a síntese desta pesquisa preliminar que eu trago, brevemente, na forma deste texto para dividir também com vocês.

Entre os maiores pensadores do século XX sobre a arquitetura humanizada e ecológica, destaca-se a figura do arquiteto e artista Hundertwasser. Sua obra está voltada, em grande parte, para as questões ambientais, expostas tanto em seus quadros quanto em conferências, maquetes e realizações na área da arquitetura. O homem, na sua opinião, tem cinco peles: a sua epiderme natural, o seu vestuário, a sua casa, o meio ambiente onde vive e, a última, a pele planetária ou crosta terrestre onde todos vivemos.


Hundertwasser nasceu em Viena em 15 de dezembro de 1928. Hoje é seguramente o artista mais conhecido na Áustria. Também é o mais controverso e notório. A sua reputação internacional foi definitivamente consolidada pela volta ao mundo das suas obras em museus dos cinco continentes. Sua sólida e trepidante carreira se consolidou no final dos anos sessenta, iniciada com uma longa e decisiva estada em Paris onde, neste período, apresenta a sua produção numa série de exposições, discursos-manifestos e performances-happenings entre 1975 e 1983, fomentadas pelo seu empresário Joram Harel.

Joram Harel foi uma pessoa de forte importância e influência na vida de Hundertwasser. A amizade entre eles tem início em 1972, data marcante em sua vida pela libertação de todos os constrangimentos materiais, fato que lhe permitiu viver segundo seu mais forte desejo de estar em constante harmonia com a natureza e agir, em cada instante da sua vida, em completa e inquestionável concordância com os seus princípios. Também em 1972 sua vida é fortemente marcada pela morte da sua mãe, a quem o artista sempre esteve fortemente ligado. Trata-se realmente do início da grande viagem. Die Kehrtwendung será o título do discurso que fará duas vezes em 1979, em Viena e em Pfäffikon, na Suíça. Sua arte identifica-se, a partir de então, cada vez mais estreitamente com as opções fundamentais da sua visão de mundo.

Hundertwasser é sobretudo um pensador. Além de seus trabalhos como artista, ambientalista e arquiteto, por volta dos anos 60 e 70, ele propõe por novos caminhos uma moral prática da beleza, trilhas essas que são guiadas por uma reconstrução do modo de ver a vida e de agir sobre ela como um ser humano consciente e atuante em seu habitat.

Em 1968 Hundertwasser compra na Sicília um velho veleiro de madeira chamado San Giuseppe T que leva para Veneza, restaura-o e rebatiza-o Regentag. De 1968 a 1972 o barco fica ancorado na lagoa de Veneza como uma espécie de moradia do artista que aí se desloca para viver e trabalhar a bordo ou para navegar pelas costas do Adriático. É desta época o filme apresentado em Cannes em 1972 pelo cineasta Peter Schamoni intitulado Regentag (dia de chuva).

É como artista que ele tomado pela verdade e força da beleza, enquanto pintor ele formula seu postulado, não mais que uma simples verdade: “A natureza é um fim em si, nada existe fora dela, enquanto harmoniosa é bela, a arte é o caminho que nos conduz à beleza.”

A sua reverência à criação é algo que pode ser comparado a fé religiosa, para Hundertwasser é um terreno sagrado, um direito universal, por isso é considerado um religioso naturalista. É guiado por esse princípio de beleza que ele configura uma nova moral prática a nós. A sociedade em que vivemos, guiada para o consumo, é criminosa por nos desviar de nosso verdadeiro objetivo como homens, encontrar o nosso bem estar, viver bem e fazer o bem para nosso ambiente.


Em 1972 publica o seu manifesto intitulado O teu direito de janela – O teu dever de árvore a favor de um habitat de melhor qualidade que na sua visão consiste em telhados cobertos de vegetação e arranjo individual das fachadas. Depois do Manifesto do bolor contra o racionalismo na arquitetura (forte tomada de posição em matéria de sociologia do habitat) datado de 1958, será necessário aguardar 10 anos até que o artista clarifique e precise o seu ponto de vista naturista com o seu Discurso Nu e o manifesto Los von Loos (longe de Loos). Para completar o sistema filosófico da moral prática de Hundertwasser O direito de Janela trás o bolor como metáfora do poder criador da natureza.

Seus conceitos estruturais sucessivos definem que o homem, se quiser permanecer em harmonia com a natureza, deve tomar consciência do seu maior direito: o direito individual ao arranjo da fachada da sua casa. Se para Adolf Loos o ornamento é um crime (Viena, 1908), dito como reação aos excessos florais do Jugendstil, mensagem que a arquitetura racionalista adotou como credo, Hundertwasser quer, ao contrário, sossegar os habitantes e suscitar neles o desejo de usar o seu direito de janela, aceitando abertamente o fato e a causa para a qualidade decorativa na arquitetura.

O Direito de janela inaugura uma série de atitudes que vão completar a versão do artista da receita do bem-estar na terra: Inquilino Albero (Milão, 1973), As retretes de húmus (Munique, 1975) e O manifesto da santa merda (Pfäffikon, 1979). Depois de ter reconstituído o ciclo da matéria viva e definido as modalidades de acordo com a natureza nos pontos-chave do seu plano ideológico (arte, arquitetura e ambiente) Hundertwasser vai entrar em guerra contra a poluição sob todas as suas formas: poluição do ar, riscos nucleares, atentados à natureza, destruição do patrimônio, entre outras.

Entre todas as datas importantes na vida do artista, 1980, acima de tudo, é uma data marcante em sua profícua carreira. Neste ano a cidade de Viena apresenta a maquete da futura Hundertwasser Haus na esquina das ruas Löwengasse e Kegelgasse. É neste exato momento que o crítico idealista para à ação prática, tornado-se construtor e afirmando a sua vocação de “médico da arquitetura”.

As exposições de maquetes de arquitetura vão, a partir desta data, juntar-se às exposições itinerantes de pintura e de gravura que percorrem o mundo. Em conseqüência direta disto, vários novos projetos sucedem-se, assim como novas e várias campanhas, discursos, discussões e encontros vão alimentar a polêmica permanente em Viena e avivar a hostilidade dos arquitetos racionalistas que são o alvo direto de Hundertwasser. A partir daí sua obra arquitetônica torna-se cada vez mais convincente nos aspectos de eficiência dos resultados e no evidenciar mais nítido da coerência do autor com os seus princípios naturais de preservação.

Somente depois de ter pintado a sua primeira espiral em 1953, Hundertwasser sela a marca da sua visão do mundo, da sua relação com a realidade exterior. Essa relação opera-se por osmose, a partir de níveis de consciência sucessivos e concêntricos em relação ao seu eu profundo. O símbolo pictórico ilustra a metáfora biológica. Para Hundertwasser o homem tem 3 peles: a sua epiderme natural, o seu vestuário e a sua casa. Quando, em 1967 e 1968, o artista profere o seu Discurso Nu para proclamar o direito do homem à sua terceira pele (a livre intervenção sobre a sua casa), ele completa o ritual do ciclo inteiro da espiral. Ele reencontra a sua primeira pele, a da sua verdade original, a sua nudez de homem e de pintor, despindo-se da segunda pele (a sua roupa) para proclamar o seu direito à terceira pele (a sua casa).

Somente mais tarde, após 1972, quando a grande viragem ideológica já tinha passado, a espiral das maiores preocupações de Hundertwasser vai desenvolver-se. A sua consciência de ser humano vai enriquecer-se com novas questões que vão despertar novas respostas e suscitar novos compromissos. Assim aparecerão as novas peles que virão juntar-se ao invólucro concêntrico das 3 primeiras. A quarta pele do homem é o meio social (da família e nação, passando pelas afinidades eletivas da amizade). A quinta pele é a pele planetária ligada diretamente ao destino da biosfera, à qualidade do ar que se respira e ao estado da crosta terrestre que nos protege e nos alimenta. A espiral visionária de Hundertwasser atinge, então, sua máxima amplitude.

A teoria das cinco peles define uma para cada esfera de nosso ser.

A primeira pele é a epiderme. Em cima de manifestos e ações ele questiona a estruturação de seu habitat e o modo em que vivemos nele e aponta o direito a criação, a arte como um gênero de vida, uma nova orientação à matéria. Através da “metáfora do bolor” fica a indicação que “cada habitante deve cultivar o seu próprio bolor doméstico”, dando por fim a tendência tão comum de distanciamento do homem com a natureza em prol de uma falsa assepsia. O que é proposto aqui é um retorno da participação do homem ao ciclo orgânico da matéria, como ser biológico habitante deste planeta.

A segunda pele é o vestuário, a criação e o consumo em série são questionados, na medida em que eles omitem o homem de afirmar a sua singularidade em sua vestimenta, Hundertwasser aponta uma renúncia ao individualismo, um anonimato do vestuário, onde todos são afetados por 3 males: a uniformidade, a simetria e a tirania da moda. Em contraposição ele cria suas próprias roupas, afirmando-as como seu passaporte social, aproveitando-as em sua riqueza de formas e cores e acima de tudo, afirmando o direito à diversidade.

A terceira pele é a casa, segue a espiral de seu pensamento e faz um simbólico chamado: o teu direito de janela – o teu dever de árvore. Em sua visão, homens e mulheres criativos, tem o direito de enfeitar, considerando a subjetividade dos seus gostos, e tão longe quanto seus braços alcancem, as suas janelas ou fachadas exteriores. Ele caminha mais um pouco e une cada vez mais estética e moral. A casa do homem é o tema, e a discussão sobre a uniformidade das criações humanas retorna, a arquitetura racionalista é criticada em prol do fim da linha reta, o retorno ao traço orgânico e individual é afirmado também na arquitetura. Além da reforma de fachadas, cunhando o termo redesign, no qual cada morador tem o direito de enfeitar sua moradia.

Neste sentido, Hundertwasser propõe uma reestruturação da arquitetura, que consiste em singulares projetos, muitos deles efetivamente realizados, de casas com relva no telhado com intuito de purificar a água da chuva, filtrando-a e regenerando o ciclo da vegetação através, também, da utilização do húmos da matéria orgânica produzida pelos moradores da casa. A beleza, para ele, é sempre funcional. O que é proposto é um habitat manifesto, com terraços jardins, varandas bosques e pontos de encontro para promover a interação entre os moradores. Quanto à estética das casas, ele procura sempre a integração com a natureza, janelas irregulares, primazia de cores naturais e nada de linhas retas.

A quarta pele, a que se refere ao meio social, é a pele que comenta a formação da identidade, interessando muito ao artista a questão da identidade nacional. Hundertwasser teve apenas uma consciência tardia da quarta pele, a familiar. Filho único, cujo pai morreu quando era criança, a sua vida de família limita-se a uma relação exclusiva com a mãe, feita de uma ligação visceral e de uma profunda ternura irônica. A quarta pele não para no nível da família, natural ou adquirida. O meio social entende-se ao conjunto dos grupos associativos que gerem a vida de uma coletividade. A nação oferece ainda hoje a trama mas densa do tecido comunitário. O projeto de sociedade estético-naturista tem uma faceta pacifista. A paz na beleza é a expressão soberana da ordem natural, a harmonia universal.

A quinta pele é a ecologia, a preocupação e o cuidado com o meio global. É aqui que a sua consciência eco-naturalista reina, é sobre esta pele que seus projetos arquitetônicos, bastante ousados, são realizados e uma série de outros projetos e campanhas que ele se envolve em prol de um mundo mais harmônico, com mais respeito à natureza. A ecologia é a pedra de toque da sensibilidade de Hundertwasser, o citoplasma sensitivo da sua quinta pele. Hundertwasser é naturalmente “verde” como é naturalmente pintor, austríaco, cosmopolita e pacifista. Desde a sua mais tenra idade manifestou uma hipersensibilidade ao meio ambiente. A natureza é a realização suprema, fonte da harmonia universal. O seu imenso respeito pela natureza suscitou nele o desejo de a proteger contra os atentados do homem e da indústria.

A evolução conduz o homem à sua ruína, declara profeticamente Hundertwasser. Podemos deixar-nos arrastar e constatar que caminhamos para o desastre inevitável, ou podemos esperar pelos amanhãs que surgirão após a catástrofe. Se não queremos ser arrastados nem queremos esperar, existe uma terceira via – a da porta estreita – mais delicada e mais difícil, a da resistência e, na medida do possível, da resistência não violenta. O sistema de destruição global não está isento de erros que devem ser explorados para desacelerar a evolução negativa e criar uma moratória para a humanidade. A ecologia se for verdadeira, pura, naturista e não distorcida pela demagogia diária dos “políticos verdes” é um bom agente retardador.

Não se pode confiar no homem para conter o limiar descontrolado do crescimento. Haverá sempre cientistas e ditadores irresponsáveis. O remédio poderia ser a educação – a sensibilização das pessoas para a beleza através da arte.

Por alguma razão estranha – mas muito característica – o Fernandão desapareceu da Universidade. Cursou e concluiu o primeiro semestre da diplomação, plantou e provocou a minha curiosidade e sumiu. Não apareceu para cursar o segundo semestre e, finalmente, concluir a sua longa jornada de estudante de arquitetura. De certa forma, isto já era esperado. Este meu grande amigo, inquieto com a certeza de tantas coisas por fazer, neste mundo estranho e desigual que temos que mudar, certamente se encontra diante de outras batalhas mais emergentes e abrangentes. Cada novo semestre, quando abro os cadernos de chamada para tomar conhecimento das novas turmas, corro os meus olhos rapidamente do primeiro ao último aluno para ver se encontro seu nome. Mais cedo ou mais tarde é certo que ele retornará, não somente para concluir a sua formação acadêmica mas, principalmente, para me ajudar a dar continuidade à minha.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Ulbra - Atelier 2

Bancas 2010/1

Nos dias 12 e 13 de julho o curso de Arquitetura e Urbanismo da Ulbra estará finalizando as suas atividades acadêmicas do primeiro semestre de 2010 com a apresentação dos trabalhos de conclusão de curso dos seus alunos. As apresentações ocorrerão na sala 338 do prédio 14 nos turnos da tarde e vespertino (das 14h às 18h). Esta atividade é aberta ao público.

12/07
SEGUNDA-FEIRA
14:00h às 18:00h

Componentes da Banca:

Prof. Arq. Carlos Alberto Hübner, Ms. (FauUniRitter)
Prof. Arq. Luiz Gonzaga Binato de Almeida (FauUlbra - Santa Maria)
Prof. Arq. Paulo Ricardo Bregatto, Ms. (FauUlbra - Canoas)

Alunos:

ADRIANA CONSTANTE DA CUNHA
LUCAS SALVADOR
LUCIANA GALVANI VELHO
MYLDRED SCHMITZ
LIVIA BRUNA MARTINS
LUIS FERNANDO ROCKENBACH

13/07
TERÇA-FEIRA
14:00h às 18:00h

Componentes da Banca:

Prof. Arq. Mário dos Santos Ferreira, Dr. (FauPUCRS)
Prof. Arq. Enaldo Nunes Marques, Dr. (FauUlbra - Torres)
Prof. Arq. Paulo Ricardo Bregatto, Ms. (FauUlbra - Canoas)

Alunos:

JULIO CESAR MACHADO RABELO
CARLA BEATRIZ DA COSTA
JULIO CESAR MAGALHAES RODRIGUES
CARLA ROSANE LANNER
KETHY DE OLIVEIRA FIGUEIREDO
LISANDRA GONCALVES FERRAZ

Observações gerais:

- Cada aluno terá 15 minutos para apresentar seu trabalho e os membros da banca mais 15 minutos para as devidas considerações (5 minutos cada um), totalizando 30 minutos para apresentação das propostas. Aos 12 minutos o aluno será informado do tempo e deverá se encaminhar para a finalização da apresentação. Complementações da apresentação poderão ser feitas diante da solicitação da banca.

- Solicitamos que os alunos tenham objetividade e poder de síntese na apresentação dos trabalhos, focando na apresentação daquilo que é pertinente ao projeto (tema, programa, terreno e entorno, composição, zoneamento, linguagem e caráter, materiais e técnicas construtivas), de acordo com o roteiro de apresentação fornecido em aula.

- As apresentações dos trabalhos terão início pontualmente às 14 horas.

- Todos os alunos deverão estar presentes na sala do Atelier 2 (sala 330) antes do horário de início das apresentações (13:30h), portando todos os elementos do trabalho, para o ato de abertura oficial das bancas.

- O aluno que não estiver presente na sala de aula, no dia e horário marcado para sua apresentação, ficará fora da avaliação do projeto final.

- Após as apresentações dos trabalhos os alunos deverão levar suas pranchas e maquetes.

- Junto com a nota final do trabalho o aluno receberá um boletim contendo as considerações emitidas pelos membros da banca.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Josep Maria Subirachs i Sitjar

Membro da Real Academia Catalã de Belas Artes de São Jorge
Membro correspondente da Hispanic Society of América de New York
Cruz de São Jorge da Generalitat da Catalunia
Medalha da Universidade Autônoma de Barcelona
Officier dans I’Ordre dês Arts et des Lettres
Personnalité de I’Année, París, 1987
Membro da Real Academia de Bellas Artes de São Fernando

Em janeiro de 1987, pouco antes de completar sessenta anos, o escultor instala sua residência no próprio templo em construção para começar a trabalhar no seu maior e mais ambicioso projeto artístico: planejar e executar a parte escultórica do átrio da fachada da Paixão da Sagrada Família. Artista independente e com uma forte personalidade, decide viver no templo porque necessita viver onde trabalha. Para ele, o trabalho é a sua própria vida e viver na própria obra facilita ao máximo sua dedicação ao trabalho.

Sua morada tem apenas 37 m2, situada na cobertura dos cortadores de pedra. Subirachs acolheu com entusiasmo a encomenda e a oportunidade de incorporar sua obra escultórica à fachada da Paixão da obra monumental de Gaudí. Nesta obra gigante, o escultor elabora, dia após dia, na intimidade e solidão do seu ateliê, a nova obra que dá continuidade ao seu constante e obsessivo processo criativo.

Admirador do universo renascentista incorpora, na sua maneira de trabalhar, uma postura humanista de análise das coisas do mundo. Sua preferência pelas massas estáticas, com um conteúdo mental denso, delimita a complexa personalidade artística de Subirachs, uma das mais interessantes da arte contemporânea.

Subirachs se autodefine como um artista essencialmente mental, pois não trabalha com a inspiração, mas sim com o estudo e com a reflexão. A obra se inicia ao lançar a idéia sobre o papel. O desenho constitui o ponto de partida do processo de criação da obra escultórica. A partir de traços reguladores esquemáticos o artista sintetiza a concepção inicial do projeto investigando as possíveis soluções formais e compositivas num conjunto de desenhos.

Quando esta série de desenhos expressa o desejo inicial do artista tem início o processo de construção dos modelos, em escala reduzida na terça parte do original, de barro para criar as formas que servirão de referência para as esculturas definitivas. Esta fase ajuda a consolidar a concepção formal das distintas partes que serão inseridas na obra e permite resolver determinados aspectos estruturais. A maleabilidade do barro facilita a construção tridimensional da idéia e o tratamento das formas e das texturas. Com a técnica de modelagem em barro, como fase transitória, o artista prepara o estudo escultórico que, posteriormente, será modelado em gesso.

Em 14 de abril de 1998, Subirachs finalizou o conjunto escultórico em pedra que narra os dois últimos dias de vida de Jesus. Este foi o encargo que recebeu da Junta Construtora do Templo da Sagrada Família e que, mais tarde, foi ampliado com a realização das portas em bronze e os quatro apóstolos que figuram ao pé das quatro torres da fachada do Poente.

Cronologia

1927 – Nasce em Barcelona

1945 – Trabalha de aprendiz no ateliê do escultor Enric Casanovas

1951 – Recebe uma bolsa de estudos do Instituto Francês de Barcelona para estudar em Paris

1954/56 – Reside e trabalha na Bélgica

1957 – Escultura da entrada dos Jardins Mundet de Barcelona. É a primeira obra abstrata numa via pública de Barcelona

1958 – Escultura “Evocació Marinera” no Passeio Juan de Borbón de Barcelona

1959 – Relevo da fachada da Faculdade de Direito de Barcelona

1961 – Inauguração do Santuário da Virgem do Caminho de Leon, onde realiza em bronze a fachada, as portas e toda a escultura do interior. Escultura em Market Center Award de Dallas (EUA)

1962 – Cruz de São Miguel em Montserrat (Barcelona)

1963 – Monumento as vítimas das inundações do Vallés em Rubi (Barcelona). Monumento a Narcís Monturiol na Avenida Diagonal de Barcelona

1967 – Escultura “La mesura de l’espai-temps” na Via Augusta (Barcelona)

1968 – Monumento ao Comércio Internacional em Dallas (EUA). Monumento da XIX Olimpíada no México D.F. (México)

1969 – Monumento “Homenatge a Barcelona” no Parque Montjuïc de Barcelona. Relevo da fachada do novo edifício da Prefeitura de Barcelona. Mural da estação Diagonal do Trem Metropolitano de Barcelona

1972 – Instalação da obra “Al outro lado del muro” no Museu de Escultura ao Ar Livre do Passeio da Castelhana de Madrid.

1973 – Escultura “La huella” em Santa Cruz de Tenerife (Ilhas Canárias)

1975 – Monumento no Hospital de Llobregat (Barcelona)

1976 – Decoração da “Logia” que une o Palácio da Generalitat com a Casa dos Canonges em Barcelona

1977 – Monumento a Ramón Lllull em Montserrat (Barcelona). Capela do Santíssimo em Montserrat (Barcelona)

1979 – Friso da fachada da Estação de Sants de Barcelona

1981 – Relevo no Aeroporto Internacional de Barajas em Madrid, atualmente instalado no aeroporto de Alicante

1982 – Monumento a Generalitat da Catalúnia em Cervera (Lleida)

1983 – Escultura “Homenatge a Kavafis” em Palma de Mallorca (Ilhas Baleares). Monumento das Olimpíadas em Lausana (Suiza). Monumento ao Presidente Macia em Vilanova i la Geltrú (Barcelona)

1984 – Monumento à Pau Casals em Sant Salvador Del Vendrell (Tarragona). Instalação da escultura “Matéria-forma 978” no vestíbulo da Prefeitura de Barcelona. Busto do Presidente Macia no “Pati dels Tarongers” do Palácio da Generalitat de Catalúnia em Barcelona

1985 – O Museu do FC Barcelona adquire a obra “Nova Olímpia”

1986 – Monumento a Salvador Espriu em Santa Coloma de Faerns (Girona). Monumento ao conde Borrell II em Cardona (Barcelona). Busto da pianista Rosa Sabater no Palácio da Música Catalã de Barcelona. Escultura de São Jorge em Montserrat (Barcelona). Monumento aos construtores da Catedral de Girona no Bairro Antigo de Girona. Se incorpora às obras do Templo da Sagrada Família de Barcelona para realizar a Fachada da Paixão.

1987 – Monumento “Els pilars del cel” com motivo das Olimpíadas de Seúl (Coréia do Sul). Coloca a primeira escultura na fachada da Paixão na Sagrada Família de Barcelona

1988 – Realiza um monumento dedicado a Garcia Lorca em Cadaqués (Girona)

1989 – Monumento “A la unió d’Orient i Ocident” com motivo do primeiro aniversário das Olimpíadas de Seúl (Coréia do Sul). Inauguração da escultura “Clio” em Santa Júlia de Lòria (Andorra).

1990 – Busto do Presidente Lluís Companys para o Palácio da Generalitat da Catalunha em Barcelona. Coloca uma escultura no Natyonal Museum of Contemporany Art, Kwachon, Kyungki-do (Coréia do Sul). Monumento “Mil-lenari da Catalunha” em Tarragona.

1991 – Monumento ao Presidente Francesc Macia na Praça da Catalunha de Barcelona.

1992 – Exposição antológica na Casa do Monte em Madrid. Exposição no pavilhão da Generalitat da Catalunha na Exposição Universal de Sevilha

1993 – Friso na Praça Colombo em Madrid. Apresentação em Barcelona e Madrid do livro “La sima de las penúltimas inocencias”, de Camilo José Cela, com desenhos de Subirachs

1994 – Exposição sobre a obra da Fachada da Paixão na Pia Almoina em Barcelona.

1995 – Instalação de um relevo no Aeroporto de Alicante. Instalação da primeira porta de bronze do conjunto da Fachada da Paixão da Sagrada Família de Barcelona.

1997 – Coloca a segunda porta de bronze, a de Herodes a Pilatos, no conjunto da Fachada da Paixão da Sagrada Família de Barcelona. Exposição antológica em La Tour Fromage da Região Autônoma do Vale de Aosta (Itália)

1998 – Em 14 de abril coloca o último grupo escultórico, de Pilatos, na Fachada da paixão da Sagrada Família de Barcelona.

Frases

“Quizá sea en el arte de la escultura en el que vemos com más claridad que la forma es el resultado final de la unión de la Idea y la matéria; y que esta unión debe ser forzosamente hecha con amor. El artista no lutcha con la matéria, dialoga con ella.”

“El bloque, después de trabajarlo, se debe hacer notar, se tiene que hacer presente y la estructura de la obra tiene que cerrarse evitando dispersiones accidentales que la debilitarían conceptual y fisicamente.”

“La escultura es el arte de lãs três dimensiones, el arte del volumen y, por tanto, la escultura es esta broza divina que ocupa um lugar especial. Es, por tanto, um hueco, um agujero en el espacio.”

“El arte es lo que verdaderamente se opone a lamuerte, y no me refiro a la hipotética inmortalidad Del artista, sino que pienso en el carácter intemporal de la obra en su valor metafísico. Valor y virtud de los que se beneficia el hombre en general: el artista, pero también el hombre-espectador, admirador, usuário, enamorado del hecho artístico de sentirse observado, protegido de la muerte, de la nada.”

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Projeto de Produto Industrial 2

Especialização FauPucRS

Foi prorrogado o prazo para as inscrições para o curso de Especialização em Projeto de Produto Industrial, promovido pela faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PucRS. As insrcições vão até o dia 14 de julho, sendo que as matrículas ocorrerão nos dias 18 e 19 de julho. O início das aulas está marcado para o dia 09 de agosto.

Especialização em Projeto de Produto Industrial

Inscrições: até 14 de julho
Matrículas: 18 e 19 de julho
Início das aulas: 09 de agosto de 2010