sábado, 28 de março de 2015

Vire a sua forma de pensar de cabeça para baixo

Pema Chödrön
Tradução: Alessandra Gusatto

Baseamos nossas vidas em procurar a felicidade e evitar o sofrimento, mas a melhor coisa que podemos fazer para nós mesmos – e pelo planeta- é virar completamente de cabeça para baixo essa maneira de pensar. Pema Chödrön mostra-nos o lado radical do Budismo.

Em um nível muito básico todos os seres pensam que deveriam ser felizes. Quando a vida se torna difícil ou dolorosa, sentimos que algo deu errado. Isto não seria um grande problema à exceção do fato de que quando sentimos que algo deu errado, estamos dispostos a fazer qualquer coisa para nos sentirmos bem novamente. Até mesmo começar uma briga.

De acordo com os ensinamentos budistas, dificuldades são inevitáveis na vida humana. Por um lado não podemos escapar da realidade da morte. Mas há também as realidades do envelhecimento, da doença, de não conseguirmos o que queremos e de conseguir o que não queremos. Estes tipos de dificuldade são fatos da vida. Mesmo se você fosse o próprio Buda, se você fosse uma pessoa completamente iluminada, experimentaria a morte, a doença, o envelhecimento e a tristeza de perder o que você ama. Todas estas coisas lhe aconteceriam. Se você se queimasse ou cortasse, doeria.

Mas os ensinamentos budistas também dizem que não é realmente isto que causa o sofrimento em nossas vidas. O que causa sofrimento é estar sempre tentando afastar-se dos fatos da vida, sempre tentando evitar a dor e procurando a felicidade. Este nosso sentimento de que poderia haver segurança duradoura e felicidade disponíveis para nós se tão somente pudéssemos fazer a coisa certa.

Nesta vida atual podemos prestar a nós mesmos e a este planeta um grande favor e virar esta nossa velha maneira de pensar de cabeça para baixo. Como Shantideva, autor de Guia do Estilo de Vida do Bodissatva, mostra, o sofrimento tem bastante para ensinar-nos. Se aproveitarmos a oportunidade quando ela aparece, o sofrimento nos motivará para buscar respostas. Muitas pessoas, inclusive eu, chegaram ao caminho espiritual por causa de infelicidade profunda. O sofrimento pode também nos ensinar a sentir empatia pelos outros que estão no mesmo barco. Além disso, sofrer pode nos tornar humildes. Até mesmo o mais arrogante entre nós pode ser suavizado pela perda de alguém querido.

Contudo é tão básico em nós sentir que as coisas deveriam ir bem para nós e que se começamos a nos sentir deprimidos, solitários ou inadequados, houve algum tipo do erro ou nos perdemos. Na verdade, quando você se sente deprimido, solitário, traído ou tem quaisquer sentimentos indesejados, este é um momento importante no caminho espiritual. É aqui que uma transformação verdadeira pode ocorrer.

Enquanto estivermos sempre procurando certeza e felicidade, ao invés de dar valor ao gosto e cheiro e qualidade do que exatamente está acontecendo, enquanto estivermos sempre correndo do desconforto, seremos pegos por um ciclo de infelicidade e desapontamento e nos sentiremos cada vez mais fracos. Esta maneira de ver ajuda-nos a desenvolver a força interior.

E o que é especialmente encorajador é a visão de que a força interior está disponível a nós bem quando pensamos que chegamos ao fundo, quando as coisas estão na pior. Em vez de nos perguntarmos, “como posso encontrar segurança e felicidade?” poderíamos nos perguntar, “posso tocar no centro de minha dor? Posso sentar com sofrimento, tanto com o seu e o meu, sem tentar fazê-lo partir? Posso estar presente durante a dor da perda e desgraça – desapontamento em todas as suas muitas formas – e deixar que me abra?” Este é o truque.

Há várias maneiras de ver o que acontece quando nos sentimos ameaçados. Em tempos de aflição - de raiva, de frustração, de falhas – podemos ver como ficamos presos e como shenpa aumenta. A tradução usual de shenpa é “apego”, mas não expressa adequadamente o significado completo. Eu penso em shenpa como “ficar enganchado”. Outra definição, usada por Dzigar Kongtrul Rinpoche, é “carga” – a carga atrás de nossos pensamentos e palavras e ações, a carga atrás de “gostar” e “não gostar”.

Pode também ser útil deslocar nosso foco e ver como criamos barreiras. Nestes momentos podemos observar como recuamos e nos tornamos autocentrados. Tornamo-nos secos, azedos, medrosos; desintegramo-nos, ou endurecemo-nos por medo que mais dor virá. De alguma maneira familiar, automaticamente erigimos um escudo protetor e nosso autocentramento intensifica-se.

Mas este é exatamente o mesmo momento em que poderíamos fazer algo diferente. Direto no ponto, através da prática, podemos nos familiarizar com as barreiras que colocamos em torno de nossos corações e de todo nosso ser. Podemos nos tornar íntimos da maneira como nos escondemos, adormecemos e congelamos. E esta intimidade, vindo a conhecer estas barreiras tão bem, é o que começa a derrubá-las. Surpreendentemente, quando lhes damos nossa completa atenção elas começam a cair.

Finalmente todas as práticas que eu mencionei são simplesmente maneiras que podemos utilizar para dissolver estas barreiras. Seja aprendendo a estar presentes ao sentar em meditação, reconhecendo shenpa, ou praticando a paciência. Estes são métodos para dissolver as paredes protetoras que automaticamente construímos.

Quando estamos construindo as barreiras e o sentimento de “eu” sendo separado do “você” começa a ficar mais forte, exatamente ali no meio da dificuldade e da dor, tudo poderia mudar simplesmente não erigindo barreiras; simplesmente permanecendo aberto à dificuldade, aos sentimentos que você está atravessando, simplesmente não falando consigo mesmos sobre o que está acontecendo. Esta é uma etapa revolucionária. Tornar-nos íntimos da dor é a chave da mudança no fundo do nosso ser – permanecer abertos a tudo que experimentamos, deixando que a ponta afiada de tempos difíceis nos perfure o coração, deixando que estes tempos abram-nos, humilhem e nos tornem mais sábios e corajosos.

Deixe a dificuldade transformá-lo. E irá. Na minha experiência, somente necessitamos de ajuda para aprender como não fugir.

Se estivermos prontos para tentar permanecer presentes com a nossa dor, um dos maiores suportes que jamais poderíamos encontrar é cultivar o calor e a simplicidade de bodichita. A palavra bodichita tem muitas traduções, mas provavelmente a mais comum é “coração iluminado”. A palavra refere-se a um anseio de se liberar da ignorância e delusão para ajudar os outros a fazer o mesmo. Colocar nossa iluminação pessoal em uma estrutura maior – inclusive planetária, faz uma diferença significativa. Dá-nos uma perspectiva mais vasta em por quê faríamos este trabalho frequentemente difícil.

Há dois tipos de bodichita: relativa e absoluta. A bodichita relativa inclui compaixão e maitri. Chögyam Trungpa Rinpoche traduziu maitri como “amizade incondicional consigo mesmo”. Esta amizade incondicional significa ter um relacionamento imparcial com todas as partes de seu ser. Assim, no contexto de trabalhar com a dor, isto significa construir uma relação íntima, compassiva de coração com todas aquelas partes de nós mesmos que geralmente não queremos tocar.

Algumas pessoas acham os ensinamentos que ofereço úteis, pois incentivo a serem amáveis consigo mesmas, mas isto não significa mimar as nossas neuroses. A bondade que eu aprendi com meus professores e que eu tanto desejo transmitir para outras pessoas, é bondade para todas as qualidades de nosso ser. As qualidades com as quais é mais difícil sermos amáveis são as partes dolorosas, onde nos sentimos envergonhados, como se não pertencêssemos, como se tivéssemos abalados, quando as coisas estão despencando para nós. Maitri significa ficar conosco quando não temos coisa alguma, quando nos sentimos uns perdedores. E transforma-se na base para ampliar essa mesma amizade incondicional aos outros.

Se há partes inteiras de você mesmo, das quais você está sempre fugindo e das quais você até mesmo sente-se justificado em fugir, então você irá fugir de qualquer coisa que lhe ponha em contato com seus sentimentos de insegurança. E você observou quão frequentemente estas partes de nós mesmos são tocadas? Quanto mais próximo você chega de uma situação ou pessoa, mais estes sentimentos aparecem. Frequentemente, quando você está em um relacionamento ele começa ótimo, mas quando começa a intimidade e começa a trazer a tona suas neuroses, você apenas quer sair de lá.

Por isso, eu estou aqui para lhe dizer que o caminho da paz está bem ali, quando você quer se afastar. Você pode passar pela vida não deixando nada tocá-lo, mas se você quiser realmente viver completamente, se você quer entrar na vida, entrar em relacionamentos genuínos com outras pessoas, com animais, com a situação do mundo, você definitivamente terá que experimentar o sentimento de ser provocado, de ficar enganchado, de shenpa. Você não sentirá somente contentamento. O recado é que quando aqueles sentimentos emergem, não é uma falha. Esta é a chance de cultivar maitri, amizade incondicional para com seu eu perfeito e imperfeito.

A bodichita relativa também inclui despertar a compaixão. Um dos significados de compaixão é “sofrer com”, estar dispostos a sofrer com outras pessoas. Isto significa que dependendo do grau em que você pode trabalhar com a totalidade de seu ser – seus preconceitos, seus sentimentos da falha, sua auto-piedade, sua depressão, sua raiva, seus vícios – mais você conectará com outras pessoas através dessa totalidade. E será um relacionamento entre iguais. Você será capaz de sentir a dor das outras pessoas como sua própria dor. E você será capaz de sentir sua própria dor e saber que ela é compartilhada por milhões.

Bodichita absoluta, também conhecida como shunyata, é a dimensão aberta de nosso ser, o coração e a mente completamente abertos. Sem etiquetas de “você” e “eu”, “inimigo” e “amigo”, a bodichita absoluta está sempre aqui. Cultivar a bodichita absoluta significa ter um relacionamento com o mundo que é não-conceitual, sem preconceitos, tendo um relacionamento direto, não editado da realidade.

Este é o valor de sentar em prática meditativa. Você treina em voltar ao momento presente e desordenado repetidas vezes. Quaisquer pensamentos que apareçam em sua mente, você considera com equanimidade e aprende deixá-los dissolver-se. Não há nenhuma rejeição dos pensamentos e emoções que vêm à tona; pelo contrário, começamos a notar que os pensamentos e as emoções não são tão sólidos como sempre pensamos.

É necessário coragem para treinar a amizade incondicional, é necessário coragem para treinar o “sofrer com”, é necessário coragem para ficar com a dor quando ela aparece e não fugir ou construir barreiras. É necessário coragem para não morder a isca e ser arrastados. Mas na medida em que perseveramos, o reconhecimento da bodichita absoluta, a experiência de quão abertas e livres nossas mentes realmente são, começa a assentar em nós. Em consequência de tornarmo-nos mais confortáveis com os altos e baixos de nossa vida humana ordinária, este reconhecimento se fortalece.

Começamos a examinar mais de perto nossa tendência previsível de ficar enganchados, de nos separar, para nos retirar e construir paredes. Enquanto nos tornamos íntimos destas tendências, elas tornam-se gradualmente mais transparentes e vemos que há realmente um espaço, há espaço ilimitado, complacente. Isto não significa que então você vive felicidade e conforto duradouros. Esse espaço inclui a dor.

Nós ainda poderemos ser traídos, odiados. Ainda poderemos nos sentir confusos e tristes. O que não faremos é morder a isca. Algo agradável acontece. Algo desagradável acontece. Algo neutro acontece. O que aprendemos gradualmente é não fugir de estarmos inteiramente presentes. Precisamos treinar neste nível muito básico por causa do sofrimento espalhado pelo mundo. Se não estivermos treinando gradualmente, um momento de cada vez, em superar nosso medo da dor, então seremos muito limitados em quanto podemos ajudar. Seremos limitados a ajudar a nós mesmos e limitados em ajudar outros. Portanto vamos começar com nós mesmos, bem como somos, aqui e agora.

Extraído de “Practicing Peace in Times of War (Praticando a paz em tempos de guerra)”, por Pema Chödrön.

Pema Chödrön é uma monja, que pratica na tradição do budismo tibetano. Foi uma discípula do Venerável Chögyam Trungpa Rinpoche, cujos ensinamentos ela continua a disseminar entre estudantes ocidentais do mundo inteiro.

Nascida na cidade de Nova York, em 1936, Pema tem 2 filhos adultos e 2 netos. Formada pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, foi professora primária por muitos anos, no Novo México e na Califórnia. Pema já havia passado dos 30 anos quando se ligou pela primeira vez aos ensinamentos budistas. Em 1971, ela viajou para os Alpes franceses, onde encontrou o Lama Chime Rinpoche, com quem estudou por muitos anos. Tornou-se uma noviça em 1974, enquanto estudava com Lama Chime, na Inglaterra.

O primeiro encontro de Pema com seu guru-raiz, Chögyam Trungpa Rinpoche, foi em fevereiro de 1972. Lama Chime encorajou-a a trabalhar com Trungpa Rinpoche e foi com ele que Pema, finalmente, se ligou mais profundamente. Pema estudou com Trungpa Rinpoche de 1974 até a morte de dele, em 1987, recebendo dele sua ordenação plena em 1981. Pema continuou a estudar com grandes mestres das linhagens Kagyü e Nyingma do budismo tibetano.

Atualmente, Pema é professora residente na abadia Gampo, um centro monástico situado em uma área de duzentos acres, à beira-mar, sobre as falésias do cabo Breton, na Nova Escócia, no Canadá.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Resolução nº 51

Projetos de arquitetura e urbanismo são atribuições privativas de arquitetos e urbanistas. Foi publicado no site do Tribunal Regional Federal da 1ª Região o acórdão da 8ª Turma, que restabelece a validade e a vigência da Resolução nº 51 do CAU/BR. A Resolução define as atividades que só podem ser realizadas por arquitetos e urbanistas, entre essas o projeto arquitetônico nas mais diversas modalidades. A decisão deu provimento ao agravo de instrumento impetrado pelo CAU/BR, contra a liminar concedida à Associação Brasileira de Engenheiros Civis (ABENC), que suspendia a vigência da Resolução nº 51.

A ementa da decisão esclarece que estando “reconhecida a legalidade e a legitimidade da Resolução CAU/BR 51/2013 — uma vez que está amparada pelas diretrizes da Lei 12.378/2010 —, não se faz necessária a edição de resolução conjunta para validar matéria previamente regulada em legislação específica”.

No recurso, o CAU/BR argumentou que a ação proposta pela ABENC baseia-se na Lei 5.194/1966 e na Resolução 218 do CONFEA, que atribuem ao engenheiro a elaboração de “projetos” de modo genérico, enquanto a Resolução nº 51 trata de “projetos arquitetônicos”. Dessa forma, a Resolução do CAU/BR, que seguiu a Lei 12.378/2010, não contradiz norma do CONFEA, inclusive porque a Resolução CONFEA 1.010/2005 já previa que a concepção e execução de Projetos de Arquitetura seria de incumbência do arquiteto.

O CAU/BR também vem argumentando que, diferentemente do entendimento da ABENC, a suspensão da Resolução nº 51 pode, sim, expor o usuário ao risco da elaboração de projeto arquitetônico por profissional não qualificado, que não se aprofundou, ao longo do curso de graduação, nessa atividade.

O Juiz Federal Mark Ychida Brandão, substituindo o relator Desembargador Marcos Augusto de Souza, havia votado pela manutenção da decisão que suspendia a vigência da Resolução 51. O Ministério Público, por sua vez, defendeu a tese do CAU/BR. Ao julgar, a Desembargadora Maria do Carmo Cardoso, presidente da 8ª. Turma divergiu do relator e votou pelo provimento do agravo de instrumento. O Desembargador Novely Vilanova, que completa a Turma, acompanhou a presidente, resultando no provimento do recurso, o que significa que a Resolução 51 teve sua vigência plena restabelecida.

O CAU/BR vem sendo representado junto ao TRF-1 pelos advogados Carlos Medeiros, chefe de sua Assessoria Jurídica, e Carlos Mario Velloso Filho.

No Estado de Santa Catarina, o CREA/SC propôs uma Ação Civil Pública em que pediu a inconstitucionalidade do § 1° do art. 3° da Lei n° 12.378. O referido inciso diz que o “CAU/BR especificará as áreas de atuação privativas dos arquitetos e urbanistas e as áreas de atuação compartilhadas com outras profissões regulamentadas”. O pedido do CREA/SC foi acolhido, mas o CAU/BR recorreu e obteve o efeito suspensivo da decisão, ou seja, a Resolução nº 51 também continua valendo em Santa Catarina. No Estado do Paraná, o CREA/PR também entrou com uma ação contra a Resolução nº 51,que foi julgada improcedente pela Justiça.

Fonte: http://www.caurs.gov.br/?p=11213

quinta-feira, 12 de março de 2015

Todo dia é menos um dia

(Carlos Drummond de Andrade)

Todo dia é menos um dia;
menos um dia para ser feliz;
é menos um dia para dar e receber;
é menos um dia para amar e ser amado;
é menos um dia para ouvir e, principalmente, calar!

Sim, porque calando nem sempre quer dizer
que concordamos com o que ouvimos ou lemos,
mas estamos dando a outrem a chance de pensar,
refletir, saber o que falou ou escreveu.

Saber ouvir é um raro dom, reconheçamos.
Mas saber calar, mais raro ainda.
E como humanos estamos sujeitos a errar.
E nosso erro mais primário, é não saber ouvir e calar!

Todo dia é menos um dia para dar um sorriso.
Muitas vezes alguém precisa, apenas de um sorriso
para sentir um pouco de felicidade!

Todo dia é menos um dia para dizer:
- Desculpe, eu errei!
Para dizer:
- Perdoe-me por favor, fui injusto!

Todo dia é menos um dia;
Para voltarmos sobre os nossos passos.
De repente descobrimos que estamos muito longe
e já não há mais como encontrar
onde pisamos quando íamos.
Já não conseguiremos distinguir nossos passos
de tantos outros que vieram depois dos nossos.

E se esse dia chega, por mais que voltemos,
estaremos seguindo um caminho, que jamais
nos trará ao ponto de partida.

Por isso use cada dia com sabedoria.
Ouça e cale se não se sentir bem.
Leia e deixe de lado, outra hora você vai conseguir
interpretar melhor e saber o que quis ser dito.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Eduardo Souto de Moura

Entrevista

"A crise não é de todo má"

A emigração de arquitetos em busca de trabalho quando há crise em seus países e a miscigenação cultural dela resultante, bem como a perda de relevância desses profissionais frente às forças que movem atualmente a indústria da construção, são aspectos abordados pelo arquiteto português nesta entrevista. Nela, Souto de Moura contextualiza ainda a sua admiração pelos trabalhos de Álvaro Siza e Paulo Mendes da Rocha.

Em sua primeira visita a Brasília, em novembro de 2014, Eduardo Souto de Moura dividiu o palco com Paulo Mendes da Rocha, uma de suas inspirações confessas. Convidados pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU/DF) para falar sobre a contribuição da arquitetura e do urbanismo na construção da identidade cultural nacional, os arquitetos, ainda que contradizendo em termos o enunciado da conferência, destacaram que períodos de crise, como o que vivemos atualmente, motivam transformações positivas para a humanidade.

Na manhã seguinte ao evento, antes de percorrer a cidade e visitar o Palácio da Alvorada, o Palácio do Jaburu e a igrejinha Nossa Senhora de Fátima, todos projetos de Oscar Niemeyer, Souto de Moura concedeu esta entrevista a PROJETOdesign, com a participação de Daniel Mangabeira, residente na capital federal e um dos titulares do escritório Bloco Arquitetos.

Arquitetos e engenheiros estão disputando o campo de atuação em Portugal. Qual sua análise sobre a crise que vem fragilizando a arquitetura?

Em parte, sou otimista. Acho que é possível fazer coisas com a crise. Há três anos havia, em Portugal, o artigo 7.373, que obrigava que todos os projetos de arquitetura fossem assinados por arquitetos. Evidente que os outros grupos, como os engenheiros técnicos e civis, se descontentaram e ficaram na espera de um contra ataque. Aproveitaram, então, a falta de trabalho que há em Portugal para reivindicar a fiscalização das obras que estão em andamento. É isso o que se pretende tirar do arquiteto. Nós, no entanto, estamos a tentar que isso não aconteça, mas parece que a coisa não está favorável. É muito difícil juntar os arquitetos e colocá-los em ação, só mesmo quando a casa pegou fogo é que se faz alguma coisa. Essa perda de terreno tem a ver com o recuo da importância da arquitetura para a construção do território e da geografia de um país. Não só em quantidade, porque não há projetos, mas também em qualidade. O arquiteto é nesse momento uma das peças menos importantes do projeto. Tudo se passa ao nível das decisões políticas e de investimentos financeiros, e quando isso tudo está decidido é que se chama o arquiteto e diz: “Está aqui, vamos jogar desta maneira”.

Ocorre o mesmo nos outros países em que o senhor trabalha?

Sim. Em Portugal é mais contundente porque é mais pobre, portanto lá é algo menos disfarçado. Mas na Comunidade Europeia já não há tabela de honorários, cada um pode pagar o quanto quiser. Na Espanha havia a melhor ordem dos arquitetos da Europa, era ela que analisava os projetos e os entregava aos clientes. Era uma organização exemplar, mas acabou tudo. Liberalizou-se tudo. Aconteceu o que é natural, mas lamentável. Os arquitetos, sedentos de projeto, abaixaram os preços e a qualidade dos trabalhos diminuiu. Outro problema que a Europa está enfrentando é o da legislação exagerada. Na França, praticamente se fazem puzzles, porque as coisas estão de tal forma definidas pelas leis que nos entregam as tipologias e pronto. São os incorporadores e os empreiteiros que financiam as eleições e, portanto, influenciam as leis que comandam os projetos. Faz sentido as regras serem rígidas, mas deveria haver certo limite, senão os projetos seriam simples resoluções mecânicas. Para mim, há um grande sentido financeiro nisso tudo, o que interessa é que [a arquitetura] seja uma operação rentável. A nova legislação sobre tremores de terra, por exemplo, exige o mesmo reforço do concreto em países que têm e em países que não têm esse problema. A construção fica mais cara. Na Suíça, a exigência de isolamento é tanta que já se tem usado o concreto, com 30 centímetros de espessura, como camada de proteção. Ou, por exemplo, as janelas têm diminuído muito de tamanho por causa do controle contra o gasto de energia para a climatização. O Paulo [Mendes da Rocha] me contradisse quando eu falei que isso era uma ditadura, mas o que acontece é que, se você quiser algo diferente do exigido pelas normas, tem que arranjar um sistema mais caro, com painéis fotovoltaicos, por exemplo, que produzem energia a compensar a energia que está a ser gasta através dos vidros que abriu.

É a economia orientando a produção arquitetônica.

Muito. Sobretudo na parte pública.

Os arquitetos portugueses estão, em grande escala, trabalhando em outros países, onde entram em contato com ambientes arquitetônicos diferentes dos seus. Quando voltarem para Portugal, haverá algum impacto na arquitetura portuguesa?

Sim. Todos se perguntam o que fazer diante da crise e eu mesmo, que tenho duas filhas arquitetas, digo que o melhor a fazer é sair. A construção é um comboio com uma inércia brutal. Ainda que houvesse uma mudança imediata e que o poder público ou o privado decidisse construir, seriam oito ou dez anos de estudos de viabilidade econômica, elaboração do programa, compra do terreno, desenvolvimento do projeto e construção. Antes disso não tem trabalho para os jovens arquitetos. Nem para os mais velhos, na verdade. Tem é que ir trabalhar na China, não porque gostam, mas porque precisam. É o que está fazendo o [Álvaro] Siza, aos 81 anos. Por outro lado, a arquitetura nunca foi um fenômeno estático, estivemos sempre à procura do trabalho. Os arquitetos começaram a existir no Renascimento; o Bernini foi para a França, o Leonardo da Vinci também e toda a arquitetura portuguesa pública, de grande escala, foi feita por italianos.

O Porto, por exemplo, foi desenhado pelo [Nicolau] Nasoni, que era um arquiteto italiano, vindo de Malta. Toda a ala médica foi feita por arquitetos importados da Alemanha, no pós-guerra, como Mies van der Rohe, Gropius, Breuer. Portanto, é natural esta mobilidade dos arquitetos, não é agora que os meninos recém-formados vão ficar em casa à espera de projetos. Sair faz bem, há cruzamentos de informações que dão resultados altíssimos, na minha opinião. Acho que foi muito enriquecedor quando uma nova geração do Porto, que é uma escola muito boa e em parte ligada a uma certa tradição que vem do [Fernando] Távora e do Siza, começou a fazer estágios fora. Depois, já de volta a Portugal, um grupo de arquitetos construiu suas primeiras obras com mistura interessante de certo pragmatismo, do Porto, com a arquitetura suíça, onde muitos deles foram trabalhar. O investimento fica, consegue perceber? Neste momento está a sair uma quantidade brutal de arquitetos para as economias emergentes. Tenho certeza de que os que estão a ir para o Brasil, para Angola, Moçambique e outros países vão fazer uma arquitetura interessante, uma espécie de mestiçagem. Acho que a grande influência atualmente, em Portugal, é o modernismo brasileiro, que é um moderno amaciado. Tenho a visão otimista de que vai sair coisa boa desses cruzamentos. Aliás, o mundo tende para isto. Como o Paulo disse, já não tem muito sentido falar em identidade local.

Qual sua opinião sobre a polêmica que houve, em Portugal, quando se anunciou que os desenhos do Siza iriam para o Centro Canadense de Arquitetura?

Eu fui uma das primeiras pessoas para quem ele disse que tinha essa ideia. Fiquei indignado, porque achava que estaríamos perdendo um pouco do pouco que temos de bom. É o Amadeo [de Souza-Cardoso], na pintura, o Fernando Pessoa, na literatura, e o Siza. Ele me respondeu que não queria mandar os seus desenhos para um buraco, que é a imagem mesma do arquivo. Então, percebi que o CCA faz um bom trabalho, não usa o arquivo como se fosse um cemitério. Eles organizam e estudam os desenhos e, depois, fazem publicações. O que é muito importante para a posteridade, dá sentido ao trabalho dos arquitetos. Mesmo assim, eu pedi para o Siza a permissão para tentar manter parte dos desenhos em Portugal. Conversei com algumas instituições e o que resultou é que os projetos do Sul foram para a [Fundação Calouste] Gulbenkian, os do Norte para [o Museu] Serralves, uma parte para um colecionador privado, que é muito amigo do Siza, e a outra para o Canadá. Naquela altura o assunto se tornou público e houve uma comoção que, como o Siza dizia - e ele tinha razão -, era hipócrita. A gente dizia “isso não pode ser”, mas ninguém oferecia nada e nunca mais se falou no assunto. Falaram dos desenhos, mas o fato é que os edifícios do Siza estão em ruínas, há água no Pavilhão de Portugal, roubaram os azulejos e coberturas em cobre, está tudo abandonado. Agora é que se vem preocupar com arquivo morto?

As pessoas argumentavam que os desenhos deveriam ir para um futuro museu de arquitetura, desenhado por Siza.

A Câmara de Matosinhos cedeu um terreno para o Siza fazer um museu de arquitetura. Eu também estive a tratar disso porque era um projeto caro e não se podia andar a fazer o museu nesta época de crise. Mesmo que a Europa dê 60%, Portugal não tem como arcar com os 40%, nem com 30%, que seja. Mas, no entanto, estão a fazer a Cidade do Futebol, que é um centro de estádios. Eu não tenho nada contra futebol, até fiz um estádio, mas o que importa é que as pessoas não querem saber de arquitetura. Quando me encontram na rua o que dizem é: “Eu o vi com o Obama” [que entregou o Pritzker a Souto de Moura, em 2011]. Portanto, não fazemos parte da cultura geral.

O senhor sempre menciona o Siza nas suas apresentações.

Ele é meu maior amigo e nos damos muito bem no sentido pessoal e no profissional. Cada um tem o seu trabalho, a sua maneira de pensar, que é muito diferente, não temos que ser rivais. Nossas conversas são sobre a arquitetura ser ou não ser arte, sobre os arquitetos de que eu gosto e dos que ele gosta, como Alvar Aalto - embora eu ache que tem muitas curvas que não servem para nada. Eu fui receber o Prêmio Mies van der Rohe, em Chicago, e visitei a [residência] Farnsworth [projeto de Mies van der Rohe]. Ele não me disse nada, talvez para não me magoar, mas acho que não gosta daquilo. Só disse “Não me faz vibrar”; eu, no entanto, chorei quando entrei lá. Quando trabalhamos juntos, eu sempre começo desenhando, ele diz que é interessante mas faz modificações e seguimos assim, sobre o mesmo papel. Não temos que provar nada. Se for a minha ideia ou a dele a ir para frente, tratamos de transformá-la, de tal maneira que quando fizemos [o pavilhão temporário da galeria] Serpentine, em Londres [em 2005], as pessoas diziam achar estranho. Não se percebe bem se é do Siza ou do Eduardo, e ele dizia que era porque trabalhamos juntos, com as mesmas mãos, como em um jogo de xadrez. Mas se houver algum problema eu vou respeitar a hierarquia, não vou criar confusão para ficar a reivindicar ideias. Embora exista uma eterna discussão entre nós a respeito dos rodapés: eu não faço rodapés, mas ele sim. Sempre.

Fale sobre suas discussões com Siza a respeito do entrecruzamento de arquitetura e arte.

O Siza queria ser escultor, é a formação dele. Depois o pai o contrariou - essa é a história oficial. Citando Gaudí, teria dito: “Não precisa ser escultor para ser artista, arquiteto também faz arte”. O Siza tem uma grande formação escultórica e artística, passou toda a vida desenhando e ainda hoje faz esculturas. E ele desenha muito bem, é virtuoso, acho que tem os desenhos dentro dele e só os tira para fora, naturalmente, como se fosse a respiração. Eu não tenho isso, desenho como o arquiteto faz, para entender qual é o problema, não como artista. O artista pode escrever um livro, pintar, sentar ao piano para compor, e não dar satisfações a ninguém. Não se pode pôr em causa por que o Cézanne pintou 36 vezes o monte Sainte-Victoire. Mas, para mim, não me podem perguntar por que um prédio está às escuras com a falta de 36 janelas, portanto há limites. Existe a possibilidade de a arquitetura ser arte, mas isso não pode partir da arquitetura. Nós somos chamados a responder um problema, com técnicas e princípios de design, engenharia, estética, essas coisas todas. Se a resposta resolve única e simplesmente o problema, neste caso é uma construção, não arquitetura. Mas se resolve o problema e tem uma mais-valia, de as pessoas se sentirem bem e provocar emoções, então há um salto qualitativo e a arquitetura passa ao estatuto da arte. Isto é, o coletivo reconhece que a obra deixa de ser individual e passa a ser da comunidade. Por exemplo, a torre de Pisa. Ninguém sabe quem é o arquiteto, mas se sabe que é de Pisa.

Como isso se aplica ao trabalho de Paulo Mendes da Rocha, de quem o senhor se diz confesso admirador?

Acho vital a fortíssima ligação que há, na obra dele, entre o material, o sistema construtivo e a linguagem. É um triângulo, com as pontas equilibradas mutuamente. Nesse momento, com tantas possibilidades técnicas e com as correntes pós-modernas, pode-se fraturar tudo. Forra-se o concreto com a madeira e aquilo parece de madeira, ainda que o material tenha sua maneira adequada de ser trabalhado. O Paulo tem essa política da verdade, o que me interessa particularmente porque vivemos em um momento de fragilização da arquitetura. Outro aspecto é o ético. Atualmente, com as correntes da sociedade de consumo, desapareceu a vontade do arquiteto de analisar as situações do ponto de vista social e político. De procurar contribuir, através da arquitetura, que é o nosso campo de trabalho, para a melhoria do que não anda bem. Isso não resolve nada, efetivamente, mas dá-nos alento de procurar pelo progresso. O caso do Lelé é notável. Se o Niemeyer era um grande esteta, o Lelé, sob o ponto de vista ético, teve a pertinência de levar ao extremo as boas condições dos pacientes nos hospitais. Não é paternalismo, mas uma postura perante o mundo, que desapareceu. Não vejo os arquitetos preocupados com isso. Já o Paulo não fala apenas do objeto, mas também da cidade, da comunidade e até do planeta. Tal como o Siza, é de uma geração muito politizada, que liga a sua postura de cidadania à arquitetura.

O senhor citaria alguma obra em especial?

Eu gosto de todas as obras do Paulo. Talvez a que eu goste menos seja a do museu [dos Coches], em Lisboa. Não me faz gosto ver o Paulo colorido. É como passar os filmes do [Ingmar] Bergman ou do [Carl Theodor] Dreyer de preto e branco para cores. Esse museu é mais pictórico e eu acho que o Paulo não é. Mas eu gosto muito do Museu da Escultura, que tem o aspecto de glorificar as potencialidades dos materiais e da técnica. Leva ao limite o concreto, com o tamanho daquela viga, e não é para bater recorde do Guinness. Essa viga, no fundo, é a geradora de um espaço, que é o próprio museu. Responde a um problema que o Paulo mesmo inventou.

Vamos, agora, falar sobre coisas boas?

Mas a crise não é de todo má. Crise, em chinês, se escreve com dois símbolos: um significa projeto e o outro, mudança. Portanto, crise é não haver crise. É o estágio intermédio, de arranjar os meios para se superar o que há. Temos que viver assim.

Que obras em andamento o senhor destacaria?

Tem me animado o projeto de uma central hidrelétrica [da barragem de foz Tua, no Alto Douro, em Portugal] que estou fazendo, que é um trabalho quase que de engenharia. Quem trata das montanhas são os paisagistas, quem escava são os geólogos, quem constrói o concreto são os engenheiros. No meio de tudo isto, chamaram um arquiteto para desenhar um edifício para a central hidrelétrica. Eu tenho esta paixão, de tentar perceber os vários campos e coordená-los quando falta ali qualquer coisa para ligar. Então a técnica, acho eu, é criar credibilidade para a arquitetura perante estas profissões. Os engenheiros riem-se quando eu digo que acho que se escava melhor aqui ou ali. Então, comecei a pôr em causa várias questões, usando sempre o argumento econômico. Isso está a correr muito bem e, com o passar dos anos, praticamente controlamos uma geografia enorme, desde o pedido da Unesco para colocarmos o edifício dentro da rocha até o corte da topografia, o remanejamento da montanha e do curso dos rios, a construção da plataforma. É um projeto coletivo, não do arquiteto apenas, e eu gosto muito de trabalhar em equipe porque isso me tira as dúvidas metafísicas e as angústias existenciais, se a porta é vermelha ou azul.

Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 418

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Perdas & Ganhos

Lya Luft

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério.

A quatro mãos escrevemos o roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.


PERDAS & GANHOS
Lya Luft
Editora Record
Rio de Janeiro
2012