sábado, 21 de abril de 2018

Curto, médio e longo prazo 4

Instituto de Arquitetos do Brasil - IabRS

Ontem (20/04/2018) foi publicado no site do Instituto de Arquitetos do Brasil - IabRS (www.iab-rs.org.br) o texto Curto, Médio e Longo Prazo em sua versão integral. Escrevi este texto em março movido pela constatação de que cada vez mais estamos planejando menos as nossas vidas. Muitas das decisões que tomamos em nosso dia a dia são tomadas levando em consideração apenas as demandas urgentes de curto prazo, deixando pouco - ou quase nada - como metas e estratégias de médio e longo prazo. O resultado disto é o sentimento desconfortável de que estamos vivendo as nossas vidas apenas para resolver os problemas de ontem, sem nos permitirmos o exercício saudável de olhar para frente e planejar onde e como queremos estar vivendo daqui alguns anos. O texto está sendo muito bem recebido pelos leitores e já foi publicado no Jornal do Comércio e ZH Opinião nas versões reduzidas e no site do Cau/RS na versão completa.

http://www.iab-rs.org.br/publicacao/curto-medio-e-longo-prazo.aspx

domingo, 25 de março de 2018

Curto, médio e longo prazo 3

Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RS - CauRS

O exercício de escrever para os jornais é muito interessante por vários aspectos. Não somente pelo alcance de público que os jornais possuem, o que seria destacar o óbvio, mas pelo exercício fantástico da síntese textual que determina um número máximo de palavras, considerando o espaço disponível para publicação e, em consequência disto, nos exige várias revisões didáticas do texto original - muitas vezes maior que o texto publicado - buscando recortar aquilo que pode ser suprimido, sem perder a ideia central do texto. Não é fácil, principalmente para aqueles, que como eu, se agarram às palavras do texto original como se fossem imprescindíveis. E não são!

Claro que no corta e recorta das revisões, vamos tirando alguns parágrafos e nos damos conta de que, muitas vezes, temos vários textos dentro de um só. Ou várias ideias centrais dentro de um mesmo texto que, por vezes, desviam o leitor na mensagem principal do autor. Minha metodologia de trabalho é inicialmente escrever um texto sem me preocupar com o tamanho e com a ordem em que as ideias vão surgindo. Num segundo momento ordeno os parágrafos, pois nem sempre, para mim, eles surgem já precisamente sequenciados. Em seguida, inicio a síntese identificando aquelas partes do texto onde é possível identificar mais do que uma ideia central. A quarta etapa é ajustar o texto aos espaços disponíveis pelos jornais que aceitam a sugestão de texto para publicação. O texto a seguir, publicado no dia 23/03/2018 pelo site do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RS - CauRS (www.caurs.org.br), registra a terceira etapa do processo acima descrito.


http://www.caurs.gov.br/curto-medio-e-longo-prazo-o-arquiteto-e-urbanista-paulo-bregatto-defende-reinvencao-do-espirito-solidario-em-grupo/

Curto, médio e longo prazo

Estamos presenciando transformações no mundo atual. Reformas sociais, inovações científicas, descobertas histórias, evoluções tecnológicas, entre outras. No entanto, indicadores que medem a qualidade de vida têm apresentado dados preocupantes: as pessoas não estão felizes. Avançamos em muitos setores da vida, mas não estamos sendo eficazes em transformar estes avanços em valor agregado capaz de nos permitir uma vida tranquila. Fatores essenciais como acesso ao trabalho, saúde, educação e segurança estão distantes da população.

Muitos destes avanços - pelo menos em escalas relativas - tem nos tirado da linha de risco da fome, doenças e guerras, mas este texto não trata destes avanços em grande escala. Trata da escala do dia a dia e do cotidiano das pessoas, onde a concorrência, a velocidade das coisas e as decisões urgentes, tem nos mantido alertas num clima de aparente tensão e medo.

Enquanto divulgamos e festejamos a implantação e a crescente produção da indústria 4.0, o desemprego cresce de forma alarmante, deixando sem ter o que fazer grande parte da capacidade humana de produção. O custo social deste fenômeno precisa ser mensurado com a mesma eficiência com que o mercado de ações comemora seus grandes resultados. Estamos presenciando índices de desigualdade social capazes de nos levar a conflitos civis de grande escala, como temos presenciado em nosso país.

A velocidade de processar dados digitais e projetar cenários virtuais deveria nos alertar para a importância de não vivermos na velocidade dos computadores, como se tudo fosse urgente, invertendo valores e transgredindo o bom senso, mas planejar com conhecimento de causa e consequência as nossas ações de médio e longo prazo, buscando acesso básico àquilo que agrega qualidade de vida à população. Vivemos um momento de produção cultural acrítica, bombardeados por muita informação, falsa e verdadeira, no entanto nunca produzimos tão pouco conhecimento capaz de nos tirar da zona de urgência. É o paradoxo da tecnologia digital: quanto mais geramos e acumulamos dados, menos sabemos como transformar estas informações em conhecimento. E é o conhecimento o vetor capaz de nos fazer avançar na definição de padrões de qualidade de vida.

Não são as ferramentas digitais, enquanto processadores matemáticos, que agregarão qualidade ao conhecimento. Poderão acelerar o cruzamento de informações e modelar novos padrões de vida, mas sempre será preciso que alguém interprete, traduza e transforme estas informações em conhecimento alinhado com as verdadeiras demandas da sociedade que estamos inseridos. A caneta sobre o papel nas empresas, o giz sobre o quadro verde na sala de aula ou o lápis de carpinteiro riscando uma parede no canteiro de obras, são suficientes para se expressar uma ideia inovadora e empreendedora, quando se tem uma verdadeira ideia.

Inovação, empreendedorismo e sustentabilidade se tornaram ferramentas de propaganda da sociedade atual. Mas elas não nascem em qualquer lugar, é preciso que o caminho esteja pavimentado com foco, investimento e cultura experimental. Para acertar em cheio é preciso experimentar muito. A experimentação está no cerne dos processos criativos inovadores e empreendedores. Experimentar exige autonomia e coragem e, por isso, é a base dos grandes acertos e das ideias inovadoras, e isto tem muito valor no mercado atual ou no mundo criativo compartilhado.

Temos a tendência superficial para acharmos que a genialidade de uma grande ideia é fruto do instantâneo mágico e veloz de uma única mente privilegiada. Quando fazemos isso, seja por conforto ou para explicar uma possível falta de atitude, damos as costas para o processo coletivo, compartilhado, contínuo e repetitivo das tantas experimentações e erros que vieram antes do acerto e que deram ao acerto o ambiente propício para sua invenção. Ser inovador, criativo e empreendedor não são o resultado de ações urgentes, isoladas, instantâneas, mágicas ou divinas. São o resultado de foco, planejamento e muito trabalho sério na busca de um objetivo e de uma solução.

As demandas urgentes que possuímos como povo, sociedade e nação não devem ser tratadas com abordagens superficiais de curto prazo, por mais midiáticos que possam parecer os seus efeitos, mas com ações maduras de planejamento criativo, inovador e empreendedor antevendo a qualidade de vida que queremos ter e o planeta em que queremos viver. Distanciar o olhar para esta realidade significa nos condenar a viver continuamente, década após década, usando as nossas melhores energias intelectuais e produtivas apenas para consertar a nossa própria falta de ação e visão atuais e a falta de planejamento estratégico das gerações que nos antecederam.

Planejar aprendendo com nossos erros e acertos já seria um bom caminho para os nossos gestores. Não se faz o novo negando os grandes acertos ou atropelando as experiências comprovadamente eficazes. Temos visto muito desta prática na gestão do país, empresas e universidades. O jovem não é garantia de inovação, a velocidade não é sinônimo de eficiência, o novo não é indicador de qualidade e a tecnologia não é condição única para os avanços do conhecimento. Claro que é preciso resolver muita coisa com brevidade, mas resolver com urgência o hoje, apenas cobre superficialmente os buracos do ontem, enquanto que a sociedade necessita de uma revisão dos seus códigos de convivência, de uma reformulação ética e moral capaz de pavimentar com inovação a sociedade do amanhã.

Temos que reinventar o nosso espírito solidário de grupo. Vivemos em um planeta digital conectados em rede, mas nunca nos comunicamos tão pouco e estivemos tão sós e isolados. Uma das qualidades que fizeram da espécie humana uma das mais bem sucedidas entre as demais foi a capacidade de agir e reagir colaborativamente com seus pares. Portanto, menos risco e tensão. Menos urgência e decisões superficiais. Mais seriedade e planejamento estratégico de médio e longo prazo para a vida.

Curto, médio e longo prazo 2

Jornal do Comércio (23/03/2018)

Coisa boa receber as manifestações positivas dos leitores sobre o texto que escrevi na semana passada falando das urgências de nossas vidas (urgências falsas e verdadeiras) e da consequente falta de ação e planejamento estratégico de médio e longo prazos, tão importantes na definição das nossas metas pessoais e profissionais. Planejar, de certa forma, significa antever alguns propósitos a serem atingidos e canalizar nossa melhor energia - individual e coletiva - para termos eficiência e eficácia para poder alcançá-los. O retorno que estou tendo sobre o impacto do texto revela que muitas pessoas tem parado para refletir sobre o assunto e sobre a urgência das coisas. Nem tudo são urgências, por mais que as pressões externas às vezes digam que sim.



"Planejar aprendendo com nossos erros e acertos já seria um bom caminho para os nossos gestores. Não se faz o novo negando os grandes acertos ou atropelando as experiências comprovadamente eficazes. Temos visto muito desta prática na gestão do país, empresas e universidades. O jovem não é garantia de inovação, o novo não é indicador de qualidade e a tecnologia não é condição única para os avanços do conhecimento. Claro que é preciso resolver muita coisa com brevidade, mas resolver com urgência o hoje, apenas cobre superficialmente os buracos do ontem, enquanto que a sociedade necessita de uma revisão dos seus códigos de convivência, capaz de pavimentar com solidez a sociedade do amanhã."

O resultado negativo destas tensões e frustrações é a contínua sensação de intranquilidade que tem povoado os corações das pessoas. Desta vez foi o Jornal do Comércio, em sua edição de sexta-feira e final de semana, que publicou o texto na página 4 - Opinião. Desde já, obrigado pelos e-mails e manifestações de carinho!

quarta-feira, 21 de março de 2018

Curto, Médio e Longo Prazo

GaúchaZH - Opinião

Recentemente escrevi um artigo sobre a necessidade de termos capacidade de planejamento para organizarmos nossas vidas buscando equilíbrio entre trabalho e lazer. De certa forma, sem nos darmos conta, vamos lentamente consentindo trabalhar mais e viver menos, movidos por um sentimento de urgência que aceitamos como se fossemos máquinas ou engrenagens deste sistema perverso que consome o nosso tempo apenas para o trabalho. Na sequência, o texto como foi publicado no GaúchaZH Opinião.


https://gauchazh.clicrbs.com.br/opiniao/noticia/2018/03/paulo-ricardo-bregatto-curto-medio-e-longo-prazo-cjeysgeza04gm01r4koun5r0j.html

Curto, Médio e Longo Prazo

Estamos presenciando transformações no mundo atual. Reformas sociais, inovações científicas, evoluções tecnológicas, entre outras. No entanto, indicadores que medem a qualidade de vida têm apresentado dados preocupantes: as pessoas não estão felizes. Avançamos em muitos setores da vida, mas não estamos sendo eficazes em transformar estes avanços em valor agregado capaz de nos permitir uma vida tranquila. Fatores essenciais como acesso ao trabalho, saúde, educação e segurança estão distantes da população.

A velocidade de processar dados digitais e projetar cenários virtuais deveria nos alertar para a importância de não vivermos na velocidade dos computadores, como se tudo fosse urgente, mas planejar com conhecimento de causa e consequência, nossas ações de médio e longo prazo almejando acesso básico àquilo que agrega qualidade de vida à população. Vivemos um momento de produção cultural acrítica, bombardeados por muita informação, no entanto nunca produzimos tão pouco conhecimento capaz de nos tirar da zona de urgência. É o paradoxo da tecnologia digital: quanto mais geramos e acumulamos dados, menos sabemos como transformar estas informações em conhecimento. E é o conhecimento o vetor capaz de nos fazer avançar na definição de padrões de qualidade de vida.

Planejar aprendendo com nossos erros e acertos já seria um bom caminho para os nossos gestores. Não se faz o novo negando os grandes acertos ou atropelando as experiências comprovadamente eficazes. Temos visto muito desta prática na gestão do país, empresas e universidades. O jovem não é garantia de inovação, o novo não é indicador de qualidade e a tecnologia não é condição única para os avanços do conhecimento. É claro que é preciso resolver muita coisa com brevidade, mas resolver com urgência o hoje, apenas cobre superficialmente os buracos do ontem, enquanto que a sociedade necessita é de uma revisão dos seus códigos de convivência, de uma reformulação ética e moral capaz de pavimentar a sociedade do amanhã.

Temos que reinventar o nosso espírito solidário de grupo. Vivemos em um planeta digital conectados em rede, mas nunca nos comunicamos tão pouco e estivemos tão sós e isolados. Uma das qualidades que fizeram da espécie humana uma das mais bem sucedidas entre as demais foi a capacidade de agir e reagir colaborativamente com seus pares. Portanto, menos risco e tensão e mais colaboração. Menos urgência e decisões superficiais. Mais seriedade e planejamento estratégico de médio e longo prazo para a vida.

Paulo Ricardo Bregatto
Arquiteto e Urbanista

sábado, 6 de janeiro de 2018

Formatura | FauUlbra

Auditório 220
Prédio 1 | 16h
Canoas | RS

Queridos afilhados,

Que alegria participar da solenidade da formatura de vocês hoje na Ulbra. Difícil não se contagiar pela alegria e emoção de vocês e de seus familiares. Fiquei ali na mesa vendo cada um de vocês, às vezes alegres e radiantes, às vezes pensativos e introspectivos e fiquei imaginando quantas emoções não estariam, naquele momento, povoando seus corações. A vibração com o fechamento de um ciclo importante e a conquista da formatura e, ao mesmo tempo, o compromisso de definir novos desafios e estratégias para suas conquistas. Diante do chamado do nome de cada um de vocês, corria os olhos na platéia para ver o orgulho dos seus familiares diante desta vitória. Emocionante o filme com a homenagem que prestaram aos seus pais e familiares.

No meio de toda esta emoção, me dei conta de que foi exatamente naquele auditório que eu também me formei, passados 29 anos, no dia 16 de dezembro de 1988, numa tarde quente de um verão que se aproximava. Claro que naquela época as formaturas eram bem mais simples. Nem perto da super produção da formatura de vocês. Mas a emoção é sempre a mesma. Lembro como se fosse hoje quando amanheceu o dia da minha formatura e meu primeiro pensamento foi: "a partir de hoje poderei assinar meu nome com o título de Arquiteto e Urbanista". Sempre tive muito orgulho da nossa profissão e sei que vocês também sentem. De certa forma a vida é isso mesmo. Este propagar de amor e emoções de uma geração para outra. Desejo que vocês sejam felizes e se sintam realizados com o nosso ofício. Que consigam atuar com zelo ético e rigor técnico. Que consigam formar suas famílias e criar seus filhos com dignidade e a certeza de serem bons profissionais. Desejo, também, que vocês saibam compartilhar oportunidades, ensinamentos e informações entre vocês e que nunca esqueçam que juntos somos mais fortes do que isolados. Vivemos num mundo conectado em rede digital, mas nunca estivemos tão isolados e sozinhos como atualmente. Portanto, desejo que vocês deixem de lado a cultura do individualismo para cultivar o prazer das experiências coletivas e compartilhadas. Somos todos irmãos de ofício! Nunca esqueçam disto!

Queria saber escolher a palavra certa para dizer do orgulho que sinto diante de cada turma que ajudo a formar... Então, enquanto a palavra não vem, saibam que vocês estão tatuados no meu coração e poderão sempre contar comigo para o der e vier! Um abraço apertado e um beijo carinhoso!

Discurso do Paraninfo

Componentes da mesa já citados.
Familiares e amigos aqui presentes nesta tarde de muitas alegrias e festas.
Meus queridos colegas arquitetos e urbanistas:

Foi com muita alegria que recebi o convite que vocês me fizeram para ser o paraninfo desta turma de jovens e bem preparados arquitetos e urbanistas. Conduzir vocês neste ritual de passagem, da vida acadêmica para a vida profissional, está entre as maiores distinções acadêmicas que um professor pode receber.

Caminhar com vocês ao longo do último ano da faculdade, discutindo e reformulando os rumos da nossa profissão e do ensino de arquitetura e urbanismo, a partir dos seus projetos, alicerçou a minha alegria. Seus sonhos e desejos de transformar este mundo, tão desgastado de valores éticos e morais, em nosso país temporariamente desprovido de conteúdo, fortaleceram cada vez mais a minha convicção de que é possível transformar a sociedade a partir da educação e das ações responsáveis de cada um. Nosso alegre, rigoroso e respeitoso convívio nos uniram ao redor de um objetivo comum: olhar o mundo que nos cerca pela lente da nossa profissão e da visão autoral e inovadora de cada projeto. No caso específico da turma de vocês, um mais um não são dois. São onze! Onze cabeças pensando e propondo em como as cidades, com seus edifícios e espaços públicos e privados, poderiam ser melhores a partir da viabilização dos seus projetos de diplomação.

O Adão estudou as relações entre espaço e cultura com o tema da Biblioteca Pública em Capão da Canoa. A Andressa trouxe a necessária reflexão sobre os espaços adequados para o ensino e a aprendizagem com o tema do Centro Educacional Infantil em Gravataí. O Daniel estudou a influência terapêutica da qualidade dos espaços na cura de pacientes com o tema do Centro de Atenção Psicossocial em Gravataí. A Franciele trouxe a atualidade dos temas conjugados propondo a junção de funções com o tema Habitação Estudantil + Coworking em Canoas. A Franciely, atenta aos movimentos dinâmicos das populações mundiais em grandes conflitos, propôs o Centro Kurdi de Inclusão para Refugiados e Imigrantes em Porto Alegre. A Gisele estudou a viabilidade de trazer vitalidade para o tecido urbano de parte da orla de Montenegro com o tema da Villa São João – Complexo Multiatividades. Na mesma linha de ação, buscando vitalidade para o tecido urbano de Santo Antônio da Patrulha, a Kelen propôs a reflexão sobre o aproveitamento de edificações pré-existentes com novas edificações com o tema Hub Comercial Cooperar. O Matheus propôs a reflexão sobre o sagrado e seus espaços e aspectos simbólicos com o tema da Igreja Adventista da Promessa em Capão da Canoa. A Patrícia, ciente do potencial paisagístico e natural de Três Coroas, estudou a arquitetura hoteleira com o tema Nature Pousada Ecológica. A Paula estudou as relações entre espaço, cultura, inclusão social e cidade com o tema da Biblioteca Parque em Porto Alegre. E a Taís propôs a reflexão sobre a inserção de grandes volumes em tecido urbano consolidado buscando baixo impacto formal com o tema do Centro Esportivo em Imbé.

Como podemos ver, a diversidade dos temas e lugares, associados à capacidade propositiva dos seus autores, nos permitiu transitar pela experiência fascinante de conhecer soluções arquitetônicas e urbanísticas capazes de alterar positivamente a paisagem das nossas cidades, tão carentes de funcionalidade, racionalidade e beleza.

Estamos hoje concluindo um ciclo. Novos desafios se farão presentes e outras jornadas e caminhos se abrirão para cada um de vocês. Mais cedo ou mais tarde, a saudade desta escola vai chegar, mas é para frente que se olha e se anda. Neste sentido, saibam que esta casa será sempre de vocês e sempre estará com suas portas abertas para ouvir e vibrar com suas conquistas e acolher suas novas dúvidas, pois a nossa escola - que sempre será nossa - será sempre a melhor referência das origens das nossas formações.

Sinto muito orgulho por ter participado deste momento importante e por ver vocês com esta satisfação imensa em seus rostos. Deste lugar que se encontram - e que sentaram ainda aspirantes - ao término desta cerimônia, se erguerão arquitetos e urbanistas e serão, portanto, os mais dignos herdeiros das qualidades e honrosas tradições do nosso ofício. Receberão, também, a grande e contínua tarefa de fortalecer e propagar, com o fruto do trabalho, os ideais e a genuína cultura arquitetônica brasileira, sempre com ações éticas, honestas e colaborativas, tendo em vista as necessidades da sociedade.

Por esta razão, meus arquitetos, lhes proponho brevemente como última lição de casa a reflexão sobre algumas virtudes fundamentais que expressam valores morais para o exercício da nossa profissão e da nossa responsabilidade primária como cidadãos.

Para tal, escolhi as seguintes virtudes: ética, leveza, coragem e alegria.

A escolha destas virtudes não representa aqui um juízo de valor de quem escolhe umas em detrimento de outras. Apenas as escolhidas são aquelas que, neste momento em que vocês se deparam com muitas transformações no campo pessoal e profissional, tornam-se as mais urgentes e devem receber de cada um a devida atenção como forma de fortalecimento dos laços de união colaborativa entre vocês e seus ideais por vir.

Inicio pela ética, por ser ela uma virtude vital na produção da realidade social brasileira em que estamos todos inseridos. O mundo atual, perturbado pela perigosa elasticidade interpretativa de conceitos e valores morais, requer mudanças urgentes. A capacidade humana de criar um mundo artificial, sem qualidade espacial, parece ter transcendido a nossa habilidade de coexistir com a natureza. A crise energética e o desequilíbrio do meio ambiente assumem patamares preocupantes, nos exigindo atitudes inovadoras e sustentáveis. O mercado de trabalho, com suas oportunidades e perigosas armadilhas, carece urgentemente de nova formatação, assim como, outras tantas oportunidades de trabalho, ainda adormecidas, necessitam ser lapidadas com afinco, inovação e empreendedorismo. Para tal, o fortalecimento ético da nossa categoria passa pelo nosso necessário trabalho na política profissional, revisando, fiscalizando e divulgando os princípios da ética, muitas vezes deixados de lado na concorrência imposta pela urgência das decisões. Toda pessoa possui um senso ético, uma espécie de “consciência moral”, que nos permite avaliar e julgar nossas ações para sabermos se são boas ou más, justas ou injustas. Embora relacionadas com o agir individual, a ética está relacionada ao desejo coletivo de realizar a vida com harmonia e está alicerçada nas ideias de bem e virtude enquanto valores perseguidos por todo ser humano na busca de uma existência plena e feliz, portanto, torna-se necessário reconhecer que o futuro de cada um de vocês se funde com o futuro da sociedade em que estamos todos inseridos.

Na sequência lhes proponho refletir sobre a leveza. Nesta nova jornada, que hoje se inicia, é preciso aprender a ser leve diante dos próximos desafios que poderão parecer densos e intransponíveis como as grandes montanhas. As próximas escolhas, principalmente aquelas que escolhemos justamente pela aparente leveza, poderão se revelar, numa análise madura, de um peso insustentável. Não devemos desistir! É neste exato momento que temos que mudar o nosso ponto de observação, buscando outra perspectiva para o problema. Não se trata de fuga para o mundo dos sonhos ou para o irracional. Apenas temos que aprender a enxergar as coisas sob outra ótica, outra lógica inovadora, outros meios eficazes de conhecimento, outros métodos de produção e outras formas de abordagem do problema. A leveza, neste caso, está muito mais associada à precisão e à determinação dos nossos atos. Está mais relacionada ao reconhecimento da importância das causas do que da necessidade urgente de suportar as consequências.

Como elo de união entre as virtudes anteriores vem a coragem. A coragem nos dá a base sólida para sabermos superar as dificuldades que virão como consequência das escolhas e dos próximos desafios. E as dificuldades virão! Assim sendo, desejo-lhes coragem para aguentar e durar, para viver, para suportar, para enfrentar, para combater, para chorar, para resistir, para não desistir, para perseverar. A coragem não se refere apenas ao futuro, à ameaça ou ao medo. Refere-se ao presente, e sempre está ligada à vontade, muito mais do que à esperança. Afinal, só esperamos o que não depende de nós. É por isto que a esperança só é uma virtude para aqueles que aguardam imóveis a chegada de tudo, ao passo que a coragem é uma virtude para qualquer um. A coragem não é um saber, é uma decisão. Não é uma opinião, é uma atitude!

Por fim, para adoçar o caminho, devemos plantar e cultivar sempre a alegria. A alegria é o estado de saúde que devemos sempre buscar, mais que a própria felicidade, pois a alegria não é um estado de espírito como se supõe ser a felicidade, mas uma sensação. Alegria de fazer, de construir, de atender, de estender a mão, de servir, de cooperar, de compartilhar. Alegria, coisa tão incerta como o vento que sopra lá fora, que tem dias que vem, dias que não vem, que às vezes é tão forte que vira tufão, outras parece apenas brisa suave, que pode vir do sul ou do norte, do leste ou do oeste, mas que vem, queiramos ou não, na hora ou do jeito que bem entender.

Queridos, para mim foi um grande privilégio e uma honra imensurável caminhar com vocês até aqui!
Mais uma vez muito obrigado por este convite!

Paulo Ricardo Bregatto
Canoas, 06/01/2018.