sábado, 26 de março de 2011

CAU - CreaRS

Transcrevo para divulgação o documento lido pelo colega Arq. David Bondar na última plenária do CREA sobre a Lei do CAU e a atual situação do CREA-RS. Leiam e divulguem!!

MANIFESTAÇÃO DA CÂMARA DE ARQUITETURA
Esclarecimentos referentes à Lei do CAU e à atual situação do CREA-RS
Sessão Plenária Ordinária Nº 1.689
18 de março de 2011

Sr. Presidente,
Caros colegas conselheiros,

A Câmara de Arquitetura do CREA-RS, em nome dos arquitetos gaúchos, agradece a oportunidade de realizar esta manifestação ao plenário do CREA-RS com o objetivo de esclarecer diversas questões referentes à criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo pela Lei Federal 12.378/2010, sancionada pelo então presidente Lula, em 31 de dezembro passado.

Inicialmente, queremos registrar a postura do presidente eng. civil Luiz Alcides Capoani que, mesmo não sendo favorável ao CAU, sempre tratou esta questão com respeito e com a responsabilidade que seu cargo exige. Porém, recentemente tem realizado manifestações, publicadas na Revista do CREA-RS, que não condizem com a realidade dos fatos e tem insistido em atribuir aos arquitetos e ao CAU muitos problemas que são estruturais do Sistema.

Esta postura não é construtiva e pode gerar um ambiente desfavorável à transição e, principalmente, podem causar desnecessário desconforto entre as diversas categorias profissionais abrigadas neste conselho.

A luta dos arquitetos pelo seu conselho próprio tem origem em 1958, antes ainda da Lei 5194. Recentemente, o ano de 1998 é o ponto de partida para uma nova tentativa, quando as cinco entidades nacionais dos arquitetos constituíram-se em Colégio Brasileiro de Arquitetos e passaram a atuar em conjunto: Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas – FNA, a Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo – ABEA; a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas – ABAP; a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura – ASBEA e o Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB.

Após um longo período de discussões, o Colégio Brasileiro de Arquitetos concluiu, em 2002, um anteprojeto de lei que foi encaminhado para o Congresso Nacional em 2003 e apresentado pelo Senador José Sarney. O Projeto de Lei 4747 foi aprovado no Senado, foi encaminhado à Câmara onde sofreu alterações, que obrigaram a uma nova aprovação no Senado, que se deu em 2007. Em dezembro deste mesmo ano, o presidente Lula veta o projeto, alegando que a iniciativa de tal matéria – criação de conselho profissional – é inconstitucional por ser de competência exclusiva do Executivo e não do Legislativo. Porém, em seu texto de justificativa de veto reconhece o mérito e a necessidade de criação do CAU, e determina à Casa Civil da Presidência da República a redação de um novo PL com o mesmo teor para reenvio ao Congresso.

O novo Projeto de Lei criando o CAU foi enviado ao Congresso em dezembro de 2008, mesmo ano em que o próprio Confea realizou pesquisa que apontou que 74,1% dos arquitetos brasileiros eram favoráveis á criação do CAU. Durante dois anos o PL 4413 tramitou em 3 Comissões da Câmara Federal, sendo aprovado em todas elas por unanimidade ou, no máximo, com um voto contrário. Foram realizadas diversas audiências públicas oficiais do Congresso, reuniões e seminários de discussão em todo o Brasil, patrocinadas pelas entidades nacionais e por associações locais de arquitetos. Após a aprovação na Câmara, o PL seguiu para o Senado que, por tratar-se de matéria conhecida, também aprovou por unanimidade. Finalmente, e como um de seus últimos atos como Presidente da República, em 31 de dezembro de 2010, o presidente Lula sanciona a “Lei Nº 12.378, que Regulamenta o exercício da Arquitetura e Urbanismo; cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - CAU/BR e os Conselhos de Arquitetura e Urbanismo dos Estados e do Distrito Federal - CAUs; e dá outras providências”.

Portanto, quando os atuais dirigentes do Sistema, inclusive, recentemente, e infelizmente, nosso presidente, afirmam que esta Lei foi “aprovada da noite para o dia”, estão, em realidade, procurando justificar a atitude do Confea e dos CREAs que, durante todos estes anos, negaram-se a discutir a real possibilidade de saída dos arquitetos para simplesmente colocarem-se contra e, até mesmo, quando convidados à participação e manifestação pela própria Casa Civil, como ocorreu em 2008, sempre preferiram adotar posição unilateral contrária ao PL e ao diálogo, escolhendo deliberadamente o caminho da indiferença e do boicote ao processo.

Por outro lado, nossa manifestação é explícita no sentido de deixar claro que os problemas atuais do CREA são de total responsabilidade do próprio sistema. A tentativa de atribuir aos arquitetos e à nova Lei os supostos “graves resultados negativos” que o CREA sofrerá em curto prazo apenas refletem, inequivocamente, a falta de planejamento do sistema para esta possibilidade. O Sistema hoje está voltado para si mesmo, defende a si mesmo muito antes de defender as profissões do chamado “setor tecnológico” e mesmo a sociedade.

Esperamos que, em breve, esta “crise” atribuída à criação do CAU seja identificada como o ponto de inflexão do atual Sistema rumo a sua modernização e atualização, à requalificação de sua vinculação com o mundo profissional, ao enxugamento de sua máquina administrativa, à racionalidade operacional para concentrar-se nos objetivos principais, que são a fiscalização do exercício profissional e a defesa da sociedade. Constatamos gratificados, pelas últimas pautas do Conselho Federal, que tais discussões já estão ocorrendo, e que o próprio presidente do Confea, eng. Civil Marcos Túlio de Melo, antes soberbo em suas convicções, tem manifestado que o Sistema deve espelhar-se no exemplo dos arquitetos.

Após tantos anos de discussão, a Lei do CAU apresenta muitos avanços para o Conselho de Arquitetura e Urbanismo se comparados com a nossa atual condição.

A escolha dos conselheiros do CAU, nacional e nos regionais, será por eleição direta com voto obrigatório de todos os profissionais, sendo que o CAU será realmente federativo, visto que contará com um representante eleito por cada unidade da federação. No nosso atual Sistema o voto é facultativo, as votações são inexpressivas, e os arquitetos contam com apenas 4 Conselheiros Federais.

Os valores de anuidades e as taxas de Registro de Responsabilidade Técnica (RRT) estão adequadamente descritas e registradas em Lei. Nosso CREA sofre com ações volumosas de reembolso de anuidades e taxas cobradas, reconhecimento, de forma ilegal.

As atribuições profissionais, atividades e campos de atuação dos arquitetos a partir da implantação do CAU serão EXATAMENTE as mesmas de hoje. O Art. 2º da Lei 12.378/2010 é uma transcrição direta do Anexo da Resolução 1.010/2005 do CONFEA. A diferença, que hoje é alvo de discussão no Sistema, é que os arquitetos agora têm suas atribuições registradas em texto de Lei.

Por outro lado, o artigo que determinava a divisão do patrimônio do atual Sistema foi vetado pelo então Presidente Lula. Como uma parcela importante deste patrimônio foi construída pelos arquitetos como parte do Sistema, segue a nossa ação no Congresso pela derrubada deste veto.
Muito, também, sempre se especulou sobre a sustentabilidade do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, o que felizmente está superado diante da realidade do volume de recursos de origem exclusiva dos arquitetos que ora vem sendo depositados em contas específicas nos CREAs. Para surpresa de alguns, hoje, a discussão está centrada na sustentabilidade financeira, e mesmo política, do atual Sistema.

A Lei determina que, até a posse do Presidente e dos Conselheiros do CAU/BR, apenas os artigos 56 e 57 estão em vigor. Estes artigos fazem referência ao período de eleição e transição que está sendo gerenciado pelas Câmaras de Arquitetura com a participação das entidades nacionais. Até que entrem os demais artigos em vigor estaremos aqui no CREA, dando prosseguimento às tarefas cotidianas deste conselho e trabalhando com muito afinco na organização do CAU, preparando a primeira eleição, elaborando regimentos e normativas, reunindo dados e documentos. Em 2011, portanto, ainda somos parte do Sistema, o que não deveria ser visto como novidade, considerando o tempo em que projeto de lei esteve em discussão, oportunizando seu conhecimento e sujeito à manifestação por todas as partes.

É preciso que se destaque que, para que os arquitetos obtenham o resultado necessário frente ao empreendimento que têm pela frente para instalar o CAU no prazo que lhes é concedido, os procedimentos legais e operacionais necessários ao cumprimento dos referidos artigos da Lei, em vigor, devem ser imediatamente colocados em prática.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo é uma autarquia federal com finalidades claras e aprovado em Lei Federal. Não é uma entidade de arquitetos. Não representa independência profissional. O CAU representa autonomia na fiscalização e na gestão plena de todos os assuntos relativos ao exercício da profissão do Arquiteto e Urbanista.

Nossas profissões, ali fora no mercado de trabalho, seguirão unidas e parceiras. Arquitetos e engenheiros civis, eletricistas, mecânicos, etc., seguirão sendo parceiros profissionais, sócios, colaboradores, co-responsáveis por projetos e obras nas áreas de suas competências e atribuições e seguirão trabalhando juntos no desenvolvimento das cidades e da sociedade. Apenas teremos conselhos profissionais diferentes, assim como acontece na área da saúde com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos em saúde, que trabalham em conjunto, mas com conselhos profissionais independentes.

Assim como hoje cabe aos Arquitetos e Urbanistas a materialização do seu Conselho Profissional, cabe aos senhores a responsabilidade de adaptar-se aos desafios de fiscalizar as profissões da área tecnológica considerando os paradigmas já colocados pela nossa saída, mas, em especial, os gerados pelo próprio modelo estabelecido pelo atual Sistema.

Não há como prever se os arquitetos terão resultado positivo imediato à instalação do CAU. O nosso CREA-RS tem 76 anos, ou seja, não se constrói um Conselho de uma hora para outra. A Lei aprovada, no entanto, concede aos arquitetos o instrumento básico necessário para que estes construam o seu conselho de forma a atender às expectativas almejadas por tantos anos de lutas e que o resultado de tudo isso, efetivamente, retorne na forma de mais reconhecimento e valorização da Arquitetura por parte da sociedade.

O CAU não admite mais conjecturas. Agora é Lei e a lei deve ser cumprida.
Solicitamos que esta manifestação seja registrada, na íntegra, na ata desta sessão plenária.
Muito obrigado!

CEARQ-RS

18 de março de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dica de leitura

Lobão
50 anos a mil
Lobão e Cláudio Tognolli
Editora Nova Fronteira Participações S.A.
Rio de Janeiro RJ Brasil
Brochura 15 x 23 cm
596 páginas
Sempre escolho um livro para ler naquele período entre o natal e o ano novo. Considerando que nesta época do ano a maioria das pessoas, na minha área profissional, desacelera suas demandas e exigências, canalizando as suas energias para as festas de final de ano, eu aproveito esta pequena trégua para dar uma paradinha nos trabalhos do escritório e me dedico a fazer coisas que não cabem dentro do meu tempo ao longo do ano. Não viajo nesta época do ano, pois prefiro a tranqüilidade e o aconchego da casa e, principalmente, da cidade que fica super acessível considerando que a maioria das pessoas se bandeou para o litoral ou para a serra. Ver vários filmes ao longo das madrugadas, dormir até mais tarde no outro dia, caminhadas mais longas, almoços saudáveis e sem a correria do dia-a-dia, muitos banhos de piscina e algumas horas controladas de sol, passeios descontraídos nas praças do bairro, muitas brincadeiras com o meu filho Pedro e leituras que, obrigatoriamente, não sejam de arquitetura.

Isto é quase um ritual. Cabe destacar, para os leitores mais desavisados, que não existe na convicção descrita acima, nenhuma aversão às leituras referentes ao meu amado ofício. Ao contrário disto, tenho uma biblioteca de arquitetura, parte em minha casa e parte em meu escritório, que é de provocar inveja em muitas escolas de arquitetura. Apenas me permito variar, mudando drasticamente o rumo das leituras nesta época do ano.

Já estava um pouco preocupado com a chegada do final do ano e pelo fato de não ter escolhido ainda que livro ler. Tem vezes que eu compro o livro ao longo do ano já com o destino certo de abrir e ler a sua primeira página apenas no dia 26 de dezembro, que por sinal é a data de aniversário da minha saudosa amiga Maria Alzira Jobim. Então me deparo com a aquela capa, muito bem produzida, trazendo aquele olhar sisudo e penetrante do Sr. João Luiz Woerdenbag Filho, vulgo Lobão. Não tive dúvidas, entrei na livraria e arrematei o último exemplar - da própria vitrine - e de lambuja levei, também, o DVD Acústico MTV. Pedi para embrulhar para presente, em pacotes separados, e entreguei com nota fiscal da loja e tudo para a minha mãe, que sempre me pede para eu comprar o meu próprio presente de Natal depois me reembolsando do valor pago! Isto é muito divertido e sempre foi motivo de muitas risadas na hora de abrir os presentes!!

O livro é muito bom, bem escrito e muito bem produzido. São 596 páginas de muitas aventuras, altos e baixos, vários rituais de passagens, muitos combates, alegrias e tristezas, inúmeras reinvenções de si mesmo e uma descrição histórica dos fatos dos anos 70, 80 e 90, não somente musicais, digna de uma atenção especial dos historiadores.

50 anos a mil é a autobiografia dos primeiros 50 anos de vida do músico Lobão, que conta neste belo livro ilustrado a sua heróica trajetória no cenário do Rock brasileiro. Os acontecimentos mais importantes desses primeiros 50 anos de uma vida vivida em alta velocidade, com muito entusiasmo, criatividade, sede de aventura e uma capacidade ilimitada de renascimento e de reinvenção.

Lobão já foi chamado de tudo e recebeu os mais variados diagnósticos. Mas poucos sabem o que realmente ele é. Sua vida tem ares de psicodrama, sem deixar de ser cômico, surpreendente e elucidativo. Polêmicas e histórias mal contadas são passadas a limpo pelo próprio músico. Amizades com grandes nomes da MPB e do Rock nacional, encontros inesquecíveis com Nelson Gonçalves e Elza Soares, entre muitas descobertas, parcerias, drogas, prisões, brigas e muitos amores.

Em paralelo – universo paralelo – às fartas e bem escritas descrições referentes a sua trajetória artística, o texto se ancora em fatos sociais, políticos e econômicos dos conturbados anos 70, profícuos anos 80 e paranóicos anos 90, nos permitindo entender, sob a ótica do autor, várias situações nebulosas deste passado recente do Rock brasileiro, com uma transparência elucidativa e, ao mesmo tempo, desconfortável diante de tanto descortinamento de falcatruas travestidas de falsas verdades. E no meio disto tudo descobrimos uma história de amor louca, insólita, demasiadamente humana, de uma coragem singular, imprevisível e improvável, mas bem real.

O livro trás os fatos de forma contundente, desde as idéias musicais, possivelmente, plagiadas por outros colegas, passando pela situação ultrajante de bode expiatório no caso das prisões por porte de drogas, até a pirataria oficial descarada da indústria fonográfica brasileira, entre outros fatos agudos e boicotes que são de alarmar. Tudo isto contado com a irreverência criativa do músico e com a correta manutenção do léxico e da sintaxe peculiares e autorais de Lobão, fato muito importante para a manutenção da originalidade, fluidez e ritmo do livro.

Outra questão que eu achei genial na leitura são as páginas que reúnem, ao final de cada capítulo, uma espécie de retrospectiva jornalística trazendo as notícias que estamparam a mídia nos vários períodos da sua trajetória artística.

Li o livro todo nestes poucos dias de final de ano. Sempre gostei muito da abordagem musical original e inovadora de Lobão. Mesmo tendo aquela sensação de tê-lo na lista dos artistas preferidos, não posso deixar de relatar que não tinha a menor idéia de alguns dos fatos descritos por ele ao longo do texto. Neste sentido, a leitura prazerosa dos fatos e narrativas referentes à sua vida – que mais ou menos coincide na linha do tempo com a minha geração – andou de mãos dadas com a curiosidade de descobrir muitos fatos que permaneceram, por muito tempo, nebulosos no meu entendimento e outros tantos que eu nem imagina descobrir. Não se trata, portanto, de um resgate nostálgico de um passado longínquo, morto e enterrado, mas de uma história cheia de vida, de intensidade, de coragem, de revelações que ajudam a compreender o passado, projetando luzes criativas para o futuro.

Curti do início ao fim. A leitura valeu da primeira à última pagina. Este é um daqueles livros que você vai lendo com entusiasmo e prazer mas, ao mesmo tempo, poupando algumas páginas para retardar a angústia certeira do final da leitura. Após ler a última página fiquei naquele bom silêncio reflexivo, procurando para mim mesmo uma palavra que sintetizasse a trajetória artística do músico Lobão e após alguns minutos encontro convictamente a palavra ATITUDE.

Atitude para oferecer ao seu público fiel a segunda parte desta história com mais 50 anos de rock and roll da melhor qualidade, pois como ele mesmo profetiza ao final do livro: “...afinal de contas, o melhor ainda está por vir.”

domingo, 16 de janeiro de 2011

Formatura - FauUlbra / Canoas

Turma,

A cerimônia de formatura ocorrida ontem estava linda e emocionante. Foi contagiante vê-los com aquela alegria inconfundível estampada nos rostos, assim como foi, também, emocionante ver aquela entrada triunfal, aos sons de várias e mixadas buzinas e muitas luzes, tendo a música Tropa de Elite como trilha sonora!! É isso aí aspiras, levantem a cabeça, estufem o peito e tenham muito orgulho pois agora vocês são Arquitetos e Urbanistas!! Vocês estavam lindos!!

Lhes agradeço de coração a bela distinção acadêmica que vocês me prestaram, me escolhendo para ser professor homenageado desta turma. Levarei, em especial, esta honraria sempre guardada no coração como um incentivo para o meu trabalho diário no atelier.

A arquitetura, sempre lhes disse isto, é, também, uma filosofia de vida, pois tratando da espécie humana, dos seus espaços e do mundo que os cerca, deixa pouca coisa sem a intervenção direta e sem a influência necessária do arquiteto. A arquitetura está nas próprias origens da humanidade, sendo o produto imediato do instinto humano. A arquitetura é, portanto, ciência e ofício. Ciência, na exata medida em que nos permite, a partir da pesquisa aplicada, conhecer e investigar as necessidades e demandas reais da sociedade e do mercado em que estamos inseridos. E é ofício, pois, a partir dele, participamos ativamente da vida das pessoas, seja na pequena escala habitacional da célula da família ou na escala das grandes edificações e intervenções urbanas.

Por esta razão, meus arquitetos, entre outras tantas, somos uma profissão tão, e cada vez mais, viável e fundamental nos dias de hoje, principalmente quando reconhecemos tantas coisas por fazer neste mundo desigual que temos que mudar e que depende muito das nossas atitudes e da nossa luta conjunta.

Não foram anos fáceis, eu bem sei...

Lembro da coragem de cada um na busca das idéias e das grandes invenções, da fragilidade dos corações diante das muitas dificuldades e, quase, intransponíveis barreiras. Lembro da tristeza imposta pelo exílio necessário do convívio social e familiar, já que não foram poucas as vezes que, por exigência dos nossos tantos e infindáveis trabalhos, nos obrigamos a ficar distantes de tudo aquilo e de todos aqueles que muito amamos...

E a vida passando, indiferente aos nossos apelos para que o tempo passasse mais devagar, nos fazendo sentir, aflitos, que aquele momento não mais voltaria e que ela não esperaria por nós... Quantas vezes, na solidão de um único ponto de luz acesso sobre a mesa de trabalho, nas madrugadas infindáveis, esta pergunta foi formulada por vocês: Será que vale a pena?

Lembro, ainda, do cansaço de cada corpo, do semblante exaurido e apreensivo de cada um nos dias de painel e apresentação dos trabalhos, dos momentos nebulosos onde as tarefas pareciam não caber dentro da linha tênue do tempo e, também, da tristeza diante de uma crítica, por vezes, mais contundente, embora necessária. Mas lembro, principalmente, e me parece que isto é que deve ser exaltado neste momento, da alegria estampada em cada rosto pelas grandes descobertas, pela superação de mais um desafio, pelo acerto diante da tão esperada solução viável, pela experiência mágica de uma invenção e pela oportunidade de estarmos ali, noite após noite, no calor dos verões que se estendiam ou nos implacáveis invernos, testando os nossos limites e fortalecendo cada vez mais as nossas convicções sobre a profissão e, através dela, participando da construção de um mundo melhor para todos.

É claro que vale a pena!!

Juntos, aprendemos muito nesta longa caminhada.

O tempo passou e chegamos ao fim de mais uma longa jornada. Outros tantos desafios gerados pelas demandas profissionais deverão ser assumidos. Fiquei muito feliz por ter tido a oportunidade de conviver com vocês, nesta reta final. Guardo cada um no meu coração. Lhes desejo muita sorte e muito sucesso nesta nova fase das suas vidas. Fazendo uso de algumas palavras do belo discurso de ontem, proferidas pela querida paraninfa, Profa. Arqa. Patrícia de Freitas Nerbas, “...se nos encontramos nesta vida é por que ainda vamos nos encontrar...”. Então, fica no ar aquele gostoso desejo e a certeza de estar com vocês novamente!


Contem sempre comigo!!
Um super beijo e um super abraço, já com saudade!!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Formatura - FauPucRS

Turma,

Acabo de chegar em casa após aquela maravilhosa cerimônia da formatura de vocês. Todos puderam notar a minha alegria incontida diante da bela homenagem que vocês me prestaram, me escolhendo para ser o paraninfo desta 20ª turma da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PucRS.

Não existe homenagem mais importante do que receber esta bela distinção acadêmica. Lhes agradeço do fundo do coração a oportunidade de conduzi-los neste ritual de passagem da vida acadêmica para a realidade das demandas da vida profissional. Devo lhes dizer que esta homenagem veio em boa hora. Num momento de muitas reflexões pessoais e profissionais e trocas de direção!!

Ao longo da cerimônio pude ver, nos olhos de cada um, a alegria da superação por terem alcançado tão nobre conquista. Vocês merecem!! Lembro de cada um de vocês nas disciplinas que cursamos e gurado com muito carinho a parceria, amizade e respeito que sempre caracterizaram os nossos calorosos embates e discussões sobre a arquitetura.

Valeu!! Tomarei as belas palavras que vocês proferiram e dirigiram para mim, no discurso dos oradores, como um grande incentivo diário para as minhas atividades no atelier de projeto!! Levarei na lembrança os alegres momentos que sempre caracterizaram os nossos encontros!! Retornem sempre para nossa escola, pois ela será sempre seu maior porto seguro e aquele lugar onde vocês sempre encontrarão um ambiente propício para a comemoração das suas grandes vitórias!!

Para todos, muita paz, alegria, coragem, saúde, amigos, trabalho, grana e muito amor nos corações!! Super abraço e um beijo carinhoso do Dindo!!

Discurso do Paraninfo

Componentes da mesa já citados.
Familiares e amigos aqui presentes nesta tarde quente de muitas alegrias e festas.
Meus queridos colegas arquitetos e urbanistas:

Desde o momento em que recebi o convite para ser o paraninfo, a alegria tomou conta do meu coração. Não somente pela oportunidade de estar, mais uma vez, junto desta turma pela qual tenho um grande carinho e onde fiz grandes amigos mas, principalmente, pela grande e singular oportunidade de apresentar à sociedade, nestes 14 anos de existência da nossa escola, a 20ª turma de novos e bem preparados arquitetos e urbanistas.

Sei que este honroso convite foi originado por aqueles sentimentos mútuos de companheirismo, amizade e respeito, sempre presentes durante os anos que convivemos juntos nas disciplinas que cursamos, no bar da nossa escola, nas muitas festas, nas inesquecíveis viagens de estudos, onde sempre movidos pelo sentimento de curiosidade sobre o mundo a nossa volta, buscávamos entender, pela ótica do nosso ofício, o comportamento humano diante dos mais diversos espaços, bem como, buscávamos participar sempre ativos da definição dos novos rumos para o ensino de arquitetura e o fortalecimento dos princípios da ética para o desenvolvimento da nossa profissão.

Sinto muito orgulho por ter participado de suas formações e por ver todos vocês com esta satisfação imensa estampada em seus rostos. Deste lugar que vocês se encontram - e que sentaram ainda aspirantes - ao término desta cerimônia, se erguerão arquitetos e urbanistas e serão, portanto, os mais dignos herdeiros das valiosas qualidades e honrosas tradições do nosso ofício. Mais do que isto, receberão, também, a grande e contínua tarefa de fortalecer e propagar, com o fruto do vosso trabalho, os ideais e a cultura arquitetônica local e nacional, sempre com ações honestas e colaborativas, tendo em vista as necessidades do mercado de trabalho e da sociedade em que vivemos.

Por esta razão, meus arquitetos, lhes proponho como última lição de casa o desafio de refletirem profundamente sobre algumas virtudes fundamentais que expressem valores morais, não somente para o exercício da nossa profissão, mas, principalmente, da nossa condição e obrigação primária como cidadãos, perante os nossos pares e perante a sociedade que lhes aguarda ansiosa, sedenta e carente dos resultados do vosso trabalho.

O resgate e o conhecimento dos valores morais, cada vez mais necessários, agem como um polidor da alma. Um saber viver de si para consigo, uma etiqueta de vida interior, um código de nossos deveres, pois bem sabemos que é praticando as ações justas que nos tornamos justos e é praticando as ações corajosas que nos tornamos corajosos.

Para tal, escolhi as seguintes virtudes: senso ético, leveza, coragem e alegria.

A escolha destas e não de outras, não representa aqui um juízo de valor de quem escolhe umas em detrimento de outras que para alguns possam ser mais importantes. Apenas, na minha visão, as escolhidas são aquelas que, neste momento em que vocês se deparam com muitas transformações no campo pessoal e profissional, tornam-se as mais urgentes e devem, portanto, receber de cada um de vocês a devida atenção como forma de fortalecimento dos laços de união entre cada um de vocês e seus maiores ideais por vir.

Inicio pela ética, por ser ela uma virtude vital na produção da realidade social. O mundo atual, perturbado por criações humanas, requer mudanças urgentes. A capacidade humana de criar o artificial sem qualidade parece ter transcendido a nossa habilidade de coexistir com a natureza. A crise energética internacional e o desequilíbrio mundial do meio ambiente assumem patamares preocupantes, exigindo dos novos arquitetos e urbanistas atitudes inovadoras e sustentáveis.

O mercado de trabalho, com suas inumeráveis oportunidades, mas, também, com suas perigosas armadilhas, carece urgentemente de nova formatação, assim como, outras tantas oportunidades de trabalho, ainda adormecidas aguardando por nós, necessitam ser lapidadas com afinco, inovação e empreendedorismo. Para tal, o fortalecimento ético da nossa categoria passa pelo vosso necessário trabalho na política profissional, principalmente, agora que conquistamos o tão sonhado CAU - nosso Conselho de Arquitetura e Urbanismo - revisando e divulgando os princípios da moral e da ética, muitas vezes, deixados de lado na concorrência imposta pela urgência das decisões.

Todo homem possui um senso ético, uma espécie de "consciência moral", que nos permite, constantemente, avaliar e julgar nossas ações para sabermos se são boas ou más, justas ou injustas. Por mais flexíveis que sejamos, sempre vão existir comportamentos humanos classificáveis sob a ótica do certo e errado.

Embora relacionadas com o agir individual, a ética está relacionada à opção, ao desejo de realizar a vida, mantendo, com os outros, relações justas e aceitáveis e está alicerçada nas idéias de bem e virtude, enquanto valores perseguidos por todo ser humano e cujo alcance se traduz numa existência coletiva plena e feliz.

Neste momento em que vocês estão prestes a sair da nossa escola para enfrentar a vida profissional, torna-se necessário reconhecer que o futuro de cada um de vocês se funde com o futuro da sociedade em que estamos todos inseridos. A paz, a alegria, a felicidade, o sucesso e a segurança que, individualmente, queremos ter será sempre aquela que conseguirmos construir para todos.

Na seqüência lhes proponho uma reflexão sobre a importância da leveza. Nesta nova jornada, que hoje se inicia, é preciso aprender a ser leve diante dos próximos desafios que poderão parecer densos e intransponíveis como as pedras. As próximas escolhas, principalmente aquelas que apreciamos e escolhemos justamente pela aparente leveza, poderão se revelar, numa análise aprofundada e madura, de um peso insustentável.

É neste exato momento que temos que mudar de ponto de observação. Não se trata, absolutamente, de fuga para o mundo dos sonhos ou para o irracional. Apenas temos que aprender a enxergar as coisas sob outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e outras formas de abordagem do problema. A leveza, neste caso, está muito mais associada à precisão e à determinação dos nossos atos, do que ao que é vago ou aleatório. Está mais relacionada ao reconhecimento da importância das causas do que da necessidade urgente de suportar as conseqüências.

Por esta razão é preciso saber ser leve como o pássaro. Leve como o pássaro e não como a pluma. Como o pássaro altivo que segue seu extinto, livre no ar, na busca autônoma das direções a seguir, ao contrário da frágil pluma que dependerá sempre da direção de uma brisa, para poder planar, por mais leve que seja, mas que não é nunca determinada pelo seu próprio desejo.

Como sustentação para as virtudes anteriores vem a coragem. Portanto, desejo-lhes acima de tudo muita coragem, pois a coragem nos dá a base sólida para sabermos superar todas as dificuldades que virão por conseqüência das escolhas e dos próximos desafios.

Pois as dificuldades virão...

Assim sendo, desejo-lhes coragem para agüentar e durar, coragem para viver, coragem para suportar, para combater, para enfrentar, para chorar, para resistir, coragem para perseverar. A coragem não se refere apenas ao futuro, ao medo ou à ameaça. Refere-se, também, ao presente, e sempre está ligada à vontade, muito mais do que à esperança. Afinal, só esperamos o que não depende de nós, só queremos o que depende de nós. É por isto que a esperança, a meu ver, só é uma virtude para aqueles que aguardam imóveis a chegada de tudo, ao passo que a coragem é uma virtude para qualquer um. A coragem não é um saber, mas uma decisão. Não é uma opinião, mas uma atitude.

Por fim, e para tornar o caminho que hoje se inicia mais doce, devemos plantar e cultivar sempre a alegria. A alegria é o estado de saúde que devemos sempre buscar, mais que a própria felicidade, pois a alegria não é um estado de espírito como se supõe ser a felicidade, mas sim uma sensação. Alegria, coisa tão incerta como o vento que sopra lá fora, que tem dias que vem, dias que não vem, que às vezes é tão forte que vira tufão, outras parece apenas brisa suave, que pode vir do sul ou do norte, do leste ou do oeste, mas que vem, queiramos ou não, na hora ou do jeito que bem entender...

Mais uma vez muito obrigado por este convite!
Para mim, foi um grande privilégio e uma honra imensurável caminhar com vocês até aqui!!

Que esta saudade, que a partir de agora começa a povoar os nossos corações, lhes tragam sempre a doce lembrança dos momentos felizes em que estivemos juntos e lhes tragam, também, a certeza de que esta escola sempre será de vocês e sempre estará com suas portas abertas para recebê-los com suas grandes vitórias, muitas alegrias e novas dúvidas.

Muito sucesso nesta próxima jornada!
Daqui para frente, força e honra!
Muito obrigado!!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Altos e baixos

Li uma vez, não lembro mais onde, que "...a felicidade são momentos e que a vida é tudo aquilo que acontece entre estes poucos momentos de felicidade". Sempre achei que esta frase trazia no seu significado uma dose muito forte de incompetência, aparente tristeza e resignação passiva e consentida. Mas pensando bem ela não está assim tão errada. Todo o pico de felicidade trás consigo, também, uma grande dose de estresse.

É como se, por alguns momentos, pudéssemos sair da rotina do nosso dia a dia e respirar, movidos por muitas descargas de adrenalina, os prazeres infinitos da vida sem a presença da responsabilidade do livre arbítrio e a pressão crítica dos nossos fantasmas e pré-conceitos. Sabemos bem que tudo na nossa vida tem um comportamento cíclico de uma curva senóide de altos e baixos.

É o equilíbrio natural das coisas...

E se o ônus pelos picos de prazer é a tristeza imposta pela curva em baixa, começamos a ver que o verdadeiro sentido do prazer não está na leitura dos extremos destes altos e baixos - alegrias e tristezas -, mas sim, na tranqüilidade da alma que somente o equilíbrio das nossas ações nos dá. Logo, penso que devemos fazer o melhor que podemos, de forma equilibrada, no tempo certo e na velocidade adequada, conjugando o corpo, a mente e o espírito na busca de ações de paz e de construção de um mundo ético e de uma vida melhor para nós e, sempre que possível, para aqueles que nos cercam.

Feito isto, veremos que a felicidade plena e verdadeira está contida, não nos momentos esporádicos, grandiosos, excepcionais. Não está contida nos momentos fora do comum, mas sim, na simplicidade que rodeia todas as emoções naturais e verdadeiras e, fundamentalmente, dentro do nosso coração. E se acima de tudo que fazemos bem, ainda temos a oportunidade de conhecer, de fato, boas pessoas, então, estamos cumprindo com a nossa missão nesta vida...

Sinto que às vezes buscamos, sem êxito, uma explicação racional para os nossos medos e muros defensivos que vamos construindo ao longo da vida e para as coisas da própria vida, como quem busca resolver as angústias geradas pela surpresa de uma alegria, com a criatividade e objetividade científica com que resolvemos um projeto de arquitetura. Sabemos bem que razão e emoção se desenvolvem em hemisférios opostos do nosso cérebro.

Do lado esquerdo são processadas as questões que envolvem a razão pura. Se está chovendo, devemos sair de casa com capa e guarda-chuvas, se vamos dirigir, não devemos beber, se não queremos filhos, temos que ter alguns cuidados especiais na hora do amor, e por ai vai a lista infinita das precauções universais que sempre ouvimos no nosso dia a dia.

E do lado direito, processamos as questões cujo principal combustível é a emoção. Ora, se está chovendo porque levar guarda-chuvas se eu posso ter o prazer refrescante de sentir a água batendo no meu rosto e escorrendo pelo meu corpo num bailado enlouquecido, se posso, como numa brincadeira de criança, sair pulando dentro das poças d'água vendo e sentindo a água saltar para todos os lados. Se vamos beber, para comemorar a grande alegria de se estarmos vivos e com saúde ao lado das pessoas que amamos, podemos beber somente um pouquinho antes, para depois nos afogar numa alegria infinita sabendo que não estamos assim tão longe de algum lugar para adormecer em segurança. E como é bom, quando estamos amando, durante os jogos de paixão e sedução, não termos tanto cuidado assim e seja o que Deus quiser... Trocar juras infinitas de amor, fazer promessas e planos são as alegrias e emoções que queremos ter, às vezes mais ainda do que a própria felicidade.

Como podemos ver, consumimos muita energia nesta difícil tarefa de escolher com que lado do cérebro devemos tomar as decisões em nossas vidas. De qualquer forma devemos sempre ter a clareza de reconhecer que a cabeça é redonda para que as nossas idéias possam, a qualquer momento e continuamente, trocar de direção! Não penso que uma pessoa deva morrer afogada com o peso das suas mágoas e más decisões. A vida é isto mesmo, este exercício diário de se tentar ser feliz driblando, sempre que possível, as adversidades da vida. Driblando, sempre que possível o encontro com o erro.

Mas o erro é o registro das possibilidades.

São as oportunidade que a vida nos oferece de tempos em tempos para mostrarmos a nossa fibra e do que somos capazes. Saber aproveitar somente os momentos felizes e prazerosos da vida não é mérito para ninguém. É sabido, através da filosofia e da psicologia, que inconscientemente criamos os nossos próprios desafios e que isto acontece, quase sempre, quando a nossa vida parecia navegar por mares tranqüilos...

É o mecanismo natural da vida que, de tempos em tempos, testa as nossas maiores convicções e nos coloca diante das nossas verdadeiras missões. Acredito que cada um de nós vem ao mundo com uma missão pré-estabelecida (ou até mesmo escolhida como dizem os espiritualistas) e que é preciso, nesta vida, enfrentá-la, sentir suas adversidades e superá-las.

Sem dúvidas, não é a mesma lógica que usamos em nossos trabalhos profissionais que devemos usar para resolver as inquietações dos nossos pensamentos e do nosso coração. E este nosso coração inquieto é, por vezes, muito traiçoeiro. Quando vemos estamos completamente envolvidos com aqueles desafios que começaram como uma tênue rota de fuga ou como uma curiosa aventura. Quando vemos estamos, novamente, respondendo ao chamado atávico do nosso instinto conquistador de aceitar novos desafios.

Na fala dos filósofos, somos aquilo que nos falta (Jaques Lacan) e vivemos as emoções que queremos ter (Carl Gustav Jung). Se estamos no meio da tempestade é por que a calmaria não nos serve de todo. Se andamos à noite é porque o dia, somente, não nos basta, e quem é que disse que em nossa vida temos que ter somente uma única direção? São as escolhas que fazemos...

No fundo, no fundo, isto tudo são os nossos desejos naturais se libertando das convenções religiosas e sociais querendo voltar a sentir tesão pela vida, sentir a vida à flor da pele, poder fazer fluir e tornar disponíveis nossos potenciais humanos naturais e biológicos. É este tesão pela vida e pelas coisas que nos cercam - coisas e pessoas -, que nos faz criar, amar, jogar, brincar, lutar pelo simples e encantado prazer de estar vivo e de sentir a vida. Todos nós temos uma margem de transformação necessária para podermos caminhar na direção dos nossos objetivos e desafios.

Mas, também, é verdade que todos nós, enquanto seres individuais, temos uma essência que deve ser respeitada, desenvolvida e preservada. E a química que é gerada quando estes dois universos distintos se encontram é que forma a energia que vai acompanhar e ajudar a fortalecer os objetivos conjuntos. Se para atingir um objetivo nos exigimos transformações que vão além daquilo que podemos dar, inicia-se sempre um processo de crise. Pois não podemos dar o que não temos. E ter que se tornar outra pessoa simplesmente como condição para alcançar uma meta, não é uma postura saudável, pois a vida é sábia ela vai, de tempos em tempos, nos chamar novamente para a nossa realidade a ser vencida, à nossa missão a ser cumprida.

Estamos, assim, reconhecendo a existência de um prazer antropológico pela vida que mantém a ludicidade impregnada na natureza e na essência do homem. É este tesão pela vida que nos faz ligar, forte e apaixonadamente, sem necessitar nenhuma explicação consciente, a tudo o que nos proporciona beleza, alegria e prazer. Por isto, os homens livres jogam e brincam com a vida. Por esta razão é que podem não ser "sérios", não ser "responsáveis" e não ser "coerentes". E se ser maduro e ser responsável é ser triste, amargo, reprimido, perverso, por conseqüência, é viver a margem da felicidade, penso que devemos querer ser sempre garotos.

O uso das palavras "seriedade e responsabilidade" é muitas vezes indevido e impróprio, porque elas não significam qualquer ato moral. Em síntese, quero dizer que ser mais ou menos responsável, ser mais ou menos sério corresponde à relação dialética entre o nosso medo e o nosso prazer pela vida cotidiana e pelos novos desafios.

Não devemos buscar o desejo de estarmos sempre com a razão ou estarmos sempre certos. Longe disto! Devemos sempre - e cada vez mais - buscar a alegria e a felicidade perdidas ao longo de muita anulação consentida. Ser sério ou ser responsável, ser grande ou ter crescido, são padrões que temos que tentar abandonar. Temos que construir o direito de sermos saudáveis!!

Estamos todos, diária e constantemente, em grande revolução pessoal.

Muitas vezes, o mais difícil de compreender, quando teimamos em buscar uma explicação racional para tudo com a nossa inteligência de arquiteto, é aquilo que nós mesmos complicamos e deformamos em nossa natureza, inclusive e especialmente o próprio funcionamento analítico da nossa inteligência de ser humano. Só sei que cada vez mais devemos acreditar nos nossos sonhos, não devemos sufocar os nossos desejos, não devemos julgar ninguém, pois o erro está disponível para todos e, sempre que possível, cultivar cada vez mais forte e fundo as amizades, que verdadeiramente são as únicas coisas que temos a certeza que vamos levar desta vida, sempre dentro dos nossos corações, bem perto de cada um de nós.

Este era para ser um e-mail bem curtinho em comemoração à chegada do próximo ano, mas como sempre acontece quando começo a escrever sem um tema definido, perdi o controle das horas e das palavras... Gosto muito de sentir a leveza e a paz desta época do ano. Existe um certo desarme por parte das pessoas. É como se todos atendessem a um chamado atávico natural para as introspecções e para as reflexões universais. Uma trégua diante das batalhas diárias reais e imaginárias. É um momento de novos, saudáveis e bons ventos que anunciam as férias e a alegria de estarmos próximos daqueles que amamos. Estarmos diante da alegria...

Penso que, acima de tudo, a busca da alegria tem que ser uma constante em nossas vidas. A alegria é o estado de saúde que devemos buscar, mais que a própria felicidade, pois a alegria não é um estado de espírito como se supõe ser a felicidade, mas sim uma sensação. Alegria, coisa tão incerta como o vento que sopra lá fora, que tem dia que vem, dia que não vem, que às vezes é tão forte que vira tufão, outras parece apenas brisa suave, que pode vir do sul ou do norte, do leste ou do oeste, mas que vem, queiramos ou não, na hora ou do jeito que bem entender...

Para todos os meus amigos de fé e irmãos camaradas, os votos de um 2011 repleto de paz, alegria, harmonia, lucidez, trabalho, grana, amigos coragem, saúde e muito amor nos corações!

Um beijo e o meu melhor abraço!!